Design thinking na era da inteligência artificial
História do design thinking e as principais etapas do método. O método pode ser aplicado a locais, serviços, sistemas de formação, produtos e até processos organizacionais.
Publicado em 29 de outubro de 2025 Atualizado em 29 de outubro de 2025
No mundo atual da formação, saturado de interfaces, plataformas e algoritmos, a questão da tomada de iniciativa ocupa uma posição paradoxal. Por um lado, o discurso institucional celebra a autonomia do aprendente e a sua capacidade de "se tornar ator" da sua própria aprendizagem; por outro lado, as práticas permanecem muitas vezes restritivas, marcadas por quadros de avaliação, sistemas de referência e sistemas técnicos que deixam pouco espaço para o inesperado.
A tecnologia digital, que é suposto libertar, por vezes aprisiona. Por detrás destas contradições, encontra-se uma das transformações mais profundas da educação: o poder de agir. Tomar a iniciativa significa correr o risco de pensar, de experimentar, de inventar. Para os professores, significa também aceitar que já não podem controlar tudo.
Numa altura em que a inteligência artificial está a revolucionar a forma como aprendemos e produzimos conhecimento, é urgente perguntarmo-nos se a tecnologia digital está a sufocar a iniciativa ou a criar as condições para a mesma. Para esclarecer esta tensão, temos de olhar para além da retórica tecnófila ou alarmista e regressar à pedagogia:
A história da educação, de Dewey a Freire, sempre foi permeada pela ideia de que a educação não é apenas transmissão, mas transformação. Aprender significa entrar numa relação ativa com o mundo: manipular, observar, questionar e interpretar. Mas no contexto digital, esta dinâmica torna-se ainda mais complexa. A tecnologia digital aumenta o número de oportunidades para agir (investigar, publicar, colaborar), mas também tende a uniformizar os percursos de aprendizagem.
As plataformas de formação, com a sua promessa de eficácia, introduzem frequentemente uma pedagogia processual: cliques sequenciais, validação de passos, progressão linear. O aluno avança, mas num corredor sinalizado. Este paradoxo não é anedótico: revela uma tensão entre o desejo de emancipação e a lógica de controlo inerente às tecnologias educativas.
O filósofo Luciano Floridi utiliza o termo "agentividade digital" para descrever a capacidade humana de agir num ambiente informático sem ser escravo dele. Não se trata de rejeitar a tecnologia digital, mas de a habitar conscientemente, exercendo discernimento e liberdade. É precisamente aqui que a iniciativa entra em jogo: não na simples utilização de uma ferramenta, mas na forma como a desviamos, transformamos e lhe damos sentido.
Mas as instituições educativas ainda têm de dar esse espaço. Os alunos só podem tomar a iniciativa se o quadro educativo reconhecer o valor do erro, da tentativa e erro e dos projectos pessoais. No entanto, em ambientes onde o desempenho é medido em indicadores e o tempo para a experimentação é reduzido, esta liberdade está a tornar-se rara.
Na cultura escolar, tomar a iniciativa é frequentemente equiparado a correr riscos. Tentar algo diferente significa expor-se: a uma marca, ao olhar do grupo, ao fracasso. O medo do erro, profundamente enraizado nos nossos hábitos de aprendizagem, é um dos mais poderosos travões à criatividade. Ora, a tecnologia digital, ao tornar visíveis os vestígios de cada tentativa, como as mensagens enviadas, os ficheiros carregados ou os registos de ligação, reforça por vezes este medo de errar.
No entanto, a história dos métodos activos de ensino mostra que os erros podem ser uma poderosa ferramenta de aprendizagem. Freinet já falava de "tentativa e erro", o momento em que os alunos experimentam, cometem erros e compreendem. No mundo digital, este processo pode assumir novas formas: modificar um código, editar um vídeo, criar conteúdos partilhados. O ambiente técnico torna-se um laboratório de experimentação, desde que seja concebido não como um dispositivo de controlo, mas como um espaço de teste.
Assim, a verdadeira questão é o direito de cometer erros. Uma plataforma de aprendizagem pode tornar-se um espaço de iniciativa se valorizar os percursos atípicos, as produções originais e os comentários reflexivos. Pelo contrário, pode tornar-se um lugar de submissão se reduzir a atividade à conformidade. O educador tem aqui um papel central: criar uma cultura de confiança, onde o aprendente se atreve a propor sem receio de ser punido.
É aqui que reside a diferença entre a tecnologia digital prescritiva e a formação digital. A primeira dita o que deve ser feito; a segunda acompanha, adapta e incentiva. Esta mudança pressupõe uma mudança de atitude por parte do professor: aceitar que a incerteza faz parte da aprendizagem, que a competência não é apenas uma questão de reprodução, mas de descoberta.
Quando olhamos para as práticas de aprendizagem em contextos ligados, quer se trate de aulas invertidas, de projectos colaborativos ou de simulações, vemos que as dinâmicas de iniciativa mais fortes surgem quando o enquadramento é claro mas aberto. Por outras palavras, a autonomia não surge no vazio, mas num espaço estruturado de liberdade.
Na formação em cuidados de saúde, por exemplo, a utilização de um simulador virtual permite aos formandos testar hipóteses clínicas sem pôr em perigo um doente real. Este ambiente seguro incentiva-os a tomar a iniciativa: podem cometer erros, tentar de novo e compreender. O ambiente digital torna-se assim um mediador entre a teoria e a prática, um campo de ensaio para o eu.
Do mesmo modo, nos sistemas de co-aprendizagem, as ferramentas de colaboração incentivam cada um a contribuir de acordo com os seus pontos fortes. A iniciativa já não é individual, mas colectiva: apresentar uma ideia, confrontá-la, transformá-la através do contacto com os outros. É uma experiência de democracia cognitiva, onde o conhecimento se constrói através do diálogo.
Mas não se pode improvisar o papel de ator. Tem de ser cultivado ao longo do tempo, através do apoio, do feedback reflexivo e da valorização dos sucessos. Pressupõe que os aprendentes compreendam a lógica subjacente às ferramentas que estão a utilizar: como uma IA propõe uma resposta, como um algoritmo ordena a informação, como os dados circulam. Por outras palavras, tomar a iniciativa digitalmente requer literacia crítica: agir, sim, mas saber o que se está a fazer.
Fazer da iniciativa uma alavanca e não um travão significa repensar o próprio objetivo da educação digital. Já não se trata apenas de transmitir conhecimentos, mas de formar sujeitos capazes de atuar na complexidade, de criar, de duvidar e de avaliar. Isto exige uma pedagogia baseada na confiança, mas também uma governação educativa que reconheça o valor da experimentação.
As instituições têm um papel político a desempenhar neste domínio. Dar às equipas tempo para conceber, testar e documentar as suas inovações educativas. Proporcionar espaços onde os êxitos e os fracassos possam ser utilizados como base para a aprendizagem colectiva. Aceitar que a criatividade, pela sua própria natureza, escapa à normalização.
Esta mudança cultural não pode ser decretada; concretiza-se num certo número de transformações: uma avaliação mais descritiva, um momento de autoavaliação, uma oficina de experimentação digital, um fórum de partilha entre pares, etc. Assim, pouco a pouco, nasce uma ecologia de iniciativa.
Nesta perspetiva, a tecnologia digital não é uma ferramenta neutra. Revela o que realmente valorizamos nas nossas práticas educativas. Se a utilizarmos para simplificar, controlar e automatizar, ela refreará a iniciativa. Se a utilizarmos como um espaço de exploração, de diálogo e de criação, multiplicá-la-á.
Ilustração: Gerado por IA - Flavien Albarras
Referências
Declaração de utilização da IA - O ChatGPT e o Perplexity foram utilizados como ferramentas de assistência para: (a) ajuda na revisão bibliográfica (localização/classificação de artigos e estruturação de percursos de leitura), (b) reformulação de certas passagens para melhorar a clareza e a fluência, (c) correção ortográfica. A IA não produziu argumentos ou dados sem validação: todas as referências foram verificadas e não foram inventadas citações. O conteúdo, as análises e as interpretações são da minha exclusiva responsabilidade.
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