O maestro Michel Podolak ensinou-me um dia que uma nota correta é uma nota tocada com convicção. Esta metáfora deu-me muita confiança. Mas o que significa realmente convicção?
Convicção: análise lexical, genealogia histórica e mudanças de significado
O termo convicção tem as suas raízes no latim convictio, derivado de convincere, que significa "provar decisivamente", "confundir" e "vencer por argumentos". No direito romano, convictio refere-se ao estabelecimento de uma verdade que é reconhecida como indiscutível, frequentemente no final de um debate contraditório. A convicção é, portanto, menos um estado interno do que um resultado público: é o que se impõe na sequência de uma prova provada (Perelman & Olbrechts-Tyteca, 1958).
Ao longo da história, o termo passou progressivamente do registo jurídico e retórico para um registo moral e depois subjetivo. Em Blaise Pascal, a convicção ultrapassa a demonstração racional: "O coração tem as suas razões que a razão não conhece". Torna-se um assentimento interior, irredutível à prova lógica, mas não arbitrário. Esta mudança torna-se mais radical com a modernidade: em Immanuel Kant, a convicção (Überzeugung) distingue-se da mera persuasão subjectiva pela sua exigência de uma possível universalidade, mesmo que continue a basear-se numa adesão íntima.
No século XX, a convicção é cada vez mais analisada como uma disposição existencial. Max Weber contrapõe a "ética da convicção" à "ética da responsabilidade", mostrando que a primeira compromete o sujeito a uma fidelidade aos seus valores, independentemente das consequências. Esta conceção abre uma leitura mais pragmática: a convicção não é apenas o que acreditamos ser verdadeiro, mas aquilo com base no qual agimos, falamos e exibimos.
Deste modo, a convicção pode ser entendida como um operador de coerência entre o interior e o exterior, entre a intenção, o gesto e a palavra. É precisamente este ponto de viragem que permite compreender a afirmação paradoxal: "uma nota certa é uma nota errada tocada com convicção".
Exatidão, erro e expressividade: uma leitura pragmática e estética
No domínio da música, a "nota certa" remete classicamente para uma norma objetiva: altura de acordo com um sistema de afinação, conformidade com um temperamento, adequação a uma partitura. A "nota errada" é então um desvio mensurável. No entanto, a experiência estética mostra que esta distinção não é suficiente para explicar o que é percepcionado como certo ou errado pelo ouvinte.
Numerosos estudos na filosofia da arte e na psicologia da música sublinham que a perceção da correção é profundamente contextual e incorporada (Bigand & Poulin-Charronnat, 2006). Uma nota tecnicamente "errada" pode ser entendida como expressiva, significativa e até necessária, se fizer parte de uma intenção clara e sustentada. Inversamente, uma nota perfeitamente afinada, mas tocada sem empenhamento, pode ser considerada como plana ou "errada" no sentido estético.
A convicção actua aqui como um amplificador de significado. Estabiliza a interpretação do ouvinte: o gesto musical é percebido como intencional, assumido, habitado. Esta hipótese está de acordo com as análises pragmáticas da linguagem: para John L. Austin, um enunciado só é "bem sucedido" se for proferido em condições de felicidade. Do mesmo modo, uma nota torna-se "correta" quando as condições expressivas da sua emissão estão reunidas, independentemente da sua estrita conformidade técnica.
Um erro já não é simplesmente um desvio da norma, mas um acontecimento interpretativo. Pode tornar-se um recurso se for integrado numa continuidade expressiva. Esta perspetiva é amplamente partilhada no ensino artístico contemporâneo, onde se faz a distinção entre um erro que se sofre e um desvio que se assume, explora e, por vezes, se afirma (Delalande, 2013).
Crença, aprendizagem e ação colectiva: uma hipótese transversal
A afirmação "uma nota certa é uma nota errada tocada com convicção" ultrapassa largamente o domínio da música. Fornece uma chave para pensar a aprendizagem, a ação colectiva e a facilitação. Nestes contextos, o "acerto" de uma intervenção nunca é totalmente predefinido: emerge da situação, das relações e dos ajustamentos em tempo real.
A investigação nas ciências da educação mostra que o empenho subjetivo do ator desempenha um papel decisivo no reconhecimento da pertinência de uma ação (Carré, 2005). Uma proposta tecnicamente imperfeita pode abrir um espaço frutuoso se for apresentada com clareza, coerência e responsabilidade. Inversamente, uma intervenção metodologicamente correta mas sem convicção pode não conseguir mobilizar o grupo.
De uma perspetiva mais ampla, esta hipótese está em conformidade com as abordagens enactivas da cognição, para as quais o significado não é dado a priori, mas emerge conjuntamente da ação situada (Varela, Thompson & Rosch, 1991). Neste caso, a convicção não é um dogmatismo, mas uma presença empenhada: permite ao ator "manter" a sua ação o suficiente para que esta se torne legível, discutível e transformável pelos outros.
Entendida desta forma, a convicção torna-se uma competência relacional e ética. Permite a imperfeição, desde que seja aceite. Transforma o erro em objeto de diálogo e a incerteza em oportunidade de aprendizagem. A nota nunca é correta em si mesma; torna-se correta na forma como é tocada, ouvida e repetida.
Referências
Bigand, E., & Poulin-Charronnat, B. (2006). Seremos nós "ouvintes experientes"? Uma análise das capacidades musicais que não dependem de uma formação musical formal. Cognition, 100(1), 100-130.
Carré, P. (2005). L'apprenance : vers un nouveau rapport au savoir. Paris : Dunod.
Delalande, F. (2013). La musique est un jeu d'enfant. Paris: Buchet-Chastel.
Pascal, B. (1670/2004). Pensées. Paris: Garnier-Flammarion.
Perelman, C., & Olbrechts-Tyteca, L. (1958). Traité de l'argumentation. La nouvelle rhétorique. Bruxelas: Éditions de l'Université de Bruxelles.
Varela, F. J., Thompson, E., & Rosch, E. (1991). The embodied mind: Cognitive science and human experience. Cambridge, MA: MIT Press.
Weber, M. (1919/2003). The scholar and the politician. Paris: La Découverte.
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