O telemóvel, objeto indispensável do nosso quotidiano, cola-se às nossas mãos assim que temos um momento livre, como se já não conseguíssemos suportar o silêncio e o tédio. É preciso ir ver nas redes sociais o que aconteceu na última hora, o que os outros dizem sobre isso e regozijar-se ou irritar-se com as suas reações.
O que deveria ser uma tecnologia que permitisse reproduzir as funcionalidades de um computador portátil no bolso tornou-se uma ferramenta que explora a nossa necessidade de saber e o medo de perder algo (o «Fear of Missing Out» ou FOMO).
Parece agora que, para uma parte da população, o telemóvel é importante em todas as esferas da vida: desde as comunicações ao consumo, passando pela meteorologia e pelos serviços bancários. Nem mesmo as viagens escapam a isso, com as múltiplas aplicações que servem para tudo, desde reservas até guias a seguir. Mas será que ainda é possível viajar sem o telemóvel?
Voltar ao analógico
Enquanto alguns juram que só o digital é que vale, outros procuram regressar a um funcionamento mais tangível. Os amantes da música estão a redescobrir as alegrias do vinil, os cinéfilos correm para formatos físicos como o Blu-Ray e, no que diz respeito ao turismo, uma tendência consiste em regressar aos métodos antigos: viajar à moda analógica.
O que parece bastante contraditório na nossa época, em que tudo nos leva a usar o telemóvel. Os mapas rodoviários cabem na palma da mão e são atualizados em tempo real. Podemos tirar fotografias a qualquer momento e também evitar o uso de papel com os bilhetes eletrónicos. E, acima de tudo, o telemóvel está lá para as emergências, para avarias imprevistas, para a possibilidade de nos perdermos num local estrangeiro cuja língua não compreendemos, para a capacidade de contactar os nossos entes queridos em caso de imprevisto, etc. É claro que, quando lemos histórias como a desta família francesa que se perdeu no deserto da Baixa Califórnia, no México, percebemos que o telemóvel é prático… Mas será que é necessariamente assim?
Como existem locais na Terra onde as redes de telemóvel e de Internet são fracas, ou mesmo inexistentes, o nosso aparelho deixará de ter tanto valor nesses ambientes. Ainda mais quando se perguntam a algumas pessoas que partiram sem telemóvel: há algo que salta à vista nos seus testemunhos — a ligação com o ambiente. De facto, sem o filtro do ecrã, ficamos muito mais atentos ao que nos rodeia, incluindo as paisagens, as pessoas à nossa volta e até mesmo aqueles que nos acompanham.
Evidentemente, este regresso ao passado exige que nos equipemos em conformidade. Isso significa encontrar mapas em papel e guias, ou imprimi-los antecipadamente, para nos orientarmos. Será necessário levar um relógio para controlar o tempo (se necessário) e também uma máquina fotográfica para imortalizar a viagem. Os diários de viagem em papel podem ser uma boa forma de registar por escrito e em desenhos o que se passa, sem recorrer às redes sociais. Aprender alguns elementos da língua do local para onde se vai parece importante neste contexto, ou, pelo menos, adquirir um dicionário ou um guia para se poder comunicar minimamente com os habitantes locais.
Desintoxicar-se do mundo digital
O que muitas vezes marca quem se dedica a este exercício é a constatação de até que ponto somos dependentes dos nossos ecrãs. De facto, os primeiros momentos vão ser peculiares, uma vez que os nossos dias são, em geral, pontuados pela consulta do nosso dispositivo ao som de notificações sonoras, luminosas e táteis. Assim que o corpo se desmama, a maioria dos que escolhem este caminho reconhece o efeito relaxante de já não ter o telemóvel sempre à mão. De poder realmente saborear o que vêem, de se desligarem do quotidiano e, ao mesmo tempo, das más notícias.
Quem se lança nesta aventura vive realmente uma experiência única, que não é impulsionada por uma agenda apertada, mas pela alegria da descoberta ao longo das estradas. Cada dia torna-se uma epopeia em si mesma, imperfeita, mas que grava memórias singulares. Ao fazê-lo, é-lhes possível descobrir pequenas joias de locais menos frequentados pelos turistas e que oferecem caminhadas, atividades ao ar livre e encontros com pessoas que vivem no dia-a-dia e conhecem bem os restaurantes, hotéis, etc.
A tal ponto que, aliás, há quem pague por viagens bem pensadas para se desligarem das redes sociais. São-lhes oferecidos destinos onde o analógico reina. Por exemplo, na Finlândia, a ilha de Ukko-Tammio declarou-se sem telemóveis. A ideia é aproveitar a rica fauna e flora deste ecossistema para relaxar, estar em comunhão com este parque natural e com os poucos visitantes que tomaram a mesma decisão. Muitos locais começam a propor experiências analógicas, como este coletivo de albergues da juventude para viajantes que procuram promover esta abordagem às viagens.
Então, será possível viajar sem telemóvel? Absolutamente. Será para toda a gente? Tudo depende do caráter de cada um; quem tem aversão ao imprevisto corre o risco de não gostar de não conseguir encontrar respostas às suas perguntas de imediato. Por outro lado, quem está pronto para a aventura merece partir sem o telemóvel ou levá-lo apenas para casos de emergência.
Imagem: Grégory ROOSE da Pixabay
Referências:
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