Fazer da nossa vida uma sucessão de momentos intensos, viver cada dia como se fosse o primeiro... ou o último, ir mais longe, mais alto, mais forte.
Somos regularmente convidados a procurar a intensidade para melhorar a qualidade das nossas vidas. Tristão Garcia, filósofo e escritor, estudou este conceito e as origens do seu sucesso...
Uma origem eléctrica
Como em muitas das suas entrevistas, Tristão Garcia começa o seu livro com uma conversa sobre a eletricidade. A eletricidade era um tema de grande curiosidade no século XVIII e, na altura, era a imagem da intensidade, ou seja, uma variação qualitativa que não podia ser medida. Imaginava-se que estava na origem de toda a vida e inspirava tanto os libertinos como os românticos.
Mas depressa se tornou objeto de ciência, de medição e de cálculo. O mistério e a promessa que encerrava desapareceram. A intensidade, que exprime uma variação qualitativa que não pode ser medida, desaparece assim que é definida ou expressa em números.
Mas as figuras de intensidade continuam a existir.

Modelos para viver com a intensidade
Tristão Garcia evoca o libertino. Vive na variação, na mudança e no movimento. A intensidade do que experimenta é mais importante para ele do que o prazer ou a dor. Quer se trate de sofrimento ou de volúpia, ele procura acima de tudo a intensidade da sensação. O risco, o sofrimento e a emoção dão-nos o sentido da existência.
O autor apresenta-nos também a figura do romântico, que procura nas tempestades e nas paisagens selvagens a imagem de um eu interior dilacerado, despedaçado e dominado pelas emoções. Mesmo quando está aborrecido, o romântico está intensamente aborrecido!
Finalmente, Tristão Garcia oferece-nos a personagem do roqueiro, que domina a eletricidade graças à técnica, mas que parece ter-se tornado ele próprio um ser elétrico!

Poderíamos acrescentar o viajante, como Sylvain Tesson, autor de "En avant, calme et fou, une esthétique de la bécane". Atravessar lagos gelados em motas de mecânica incerta faz-nos esquecer o vazio da vida. O risco, o frio, as condições extremas dão-nos um sentido de existência. "Quando se põe a existência em perigo, obtém-se uma intensidade, uma intensificação da vida", explicou em dezembro de 2017 no programa literário "La Grande Librairie". "Como não estou a pedir nada à ideia de uma vida depois da morte, quero com apetite alimentar-me do que a viagem me pode oferecer. Por isso, tenho de a intensificar. É por isso que vou procurar práticas de movimento".

Manter a intensidade
Como a intensidade é uma variação qualitativa, parece impossível mantê-la. Tristão Garcia mostra-nos que só correndo para a frente é que se pode manter temporariamente uma intensidade elevada.
Existem várias soluções. Podemos jogar com o movimento, a mudança e a variedade. "Interessa-me tudo o que se move, tudo o que nos faz mover, tudo o que nos faz viajar", diz Sylvain Tesson.
Outro meio é a aceleração. Ir cada vez mais depressa, mudar mais rapidamente... mas os nossos limites físicos tornam impossível continuar neste caminho durante muito tempo.
Por fim, Tristan Garcia observa que a intensidade de um acontecimento é ainda maior quando se trata de uma "primeira vez". Primeiro encontro, primeiro beijo, primeiro contacto com um país ou uma cultura. E porque não viver tudo como se fosse a primeira vez? Também neste caso, o estratagema é desfeito. "As pessoas intensas cansam-se rapidamente. Um ser vivo não consegue manter a intensidade durante muito tempo.
Continuando com Sylvain Tesson, poderíamos acrescentar que deixar um amigo viver uma experiência que já vivemos ajuda a redescobrir a intensidade de uma primeira vez. Levar o seu amigo Ludovic Escande ao cume do Monte Branco, mesmo que ele sofra de vertigens e não tenha qualquer treino, renova o sentido de aventura. Nos treinos, jogos ou intercâmbios em rede, o aspeto colaborativo também renova a intensidade do que é vivido. O sentimento de repetição tarda a instalar-se quando as surpresas podem ocorrer em qualquer momento de interação com outras pessoas.

No mundo da tecnologia digital e da formação, estas observações aplicam-se, sem dúvida, a todas as experiências 3D ou imersivas que estão a florescer, a atrair a atenção, a provocar um "uau! Os efeitos especiais que acentuam a emoção de certas sequências cinematográficas depressa parecem mornos, e outros têm de os substituir, mas sem nunca recuperar a intensidade vivida pelos primeiros espectadores de Georges Méliès ou dos irmãos Lumière.
Um equilíbrio difícil
A nossa procura de intensidade está condenada a esbarrar no teto dos nossos limites. A tal ponto que a última etapa, aquela que traria algo de novo, seria precisamente a experiência da ausência de intensidade. Oscilamos entre a ânsia de uma intensidade que nunca se desvanece e o desejo de uma vida sem intensidade, sem variação, sem altos nem baixos...
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