Philippe Meirieu escreveu um capítulo para Culturas adolescentes, publicado em 2008 pelas Edições Autrement. O seu texto está disponível gratuitamente no seu sítio Web.
Neste capítulo, Philippe Meirieu aborda a complicada relação entre a escola e os adolescentes. Atualmente, as escolas vivem a chegada dos "adolescentes" como uma invasão de "bárbaros" que estão a destruir os seus princípios. No entanto, nem sempre foi assim: até cerca de 1968, as escolas integravam perfeitamente os adolescentes "rebeldes" e até lhes davam os meios para exprimirem a sua revolta. Isto porque os jovens da época não se revoltavam contra a cultura escolar, mas contra a cultura social. Os pensadores "rebeldes" ou de rutura eram frequentemente excelentes alunos.
Mas, atualmente, o divórcio entre uma grande parte dos adolescentes e as suas escolas é total. Meirieu vê várias razões para este facto:
- A escola separa as "crianças" dos "adultos", os que aprendem e os que ensinam. Esta separação prolonga-se até ao fim do ensino secundário, e mesmo durante os primeiros anos do ensino superior. Isto acontece numa altura em que os jovens estão a atravessar um período de mudança, ou mesmo de migração de um Estado para outro. O sistema escolar não tem em conta estas mudanças.
- A escola só oferece conhecimentos objectivos, desligados da existência daqueles que devem adquiri-los. Este distanciamento é obviamente positivo, na medida em que os abre ao mundo, perspectivando as suas próprias experiências e relacionando-as com as dos outros. Mas os adolescentes têm dificuldade em distanciar-se desta forma; não têm o apoio necessário para o fazer.
- A sociedade produz uma "cultura juvenil" que é amplamente promovida pelos comerciantes que vêem os jovens como um mercado altamente lucrativo. Essa cultura valoriza o perfil indiferente/agressivo dos jovens em relação aos conhecimentos escolares. As manifestações desta cultura rejeitam as linguagens valorizadas na escola: tags, manga, rap, cultura gótica, etc.
Como parece impensável deixar os adolescentes à porta da escola, P. Meirieu sugere um certo número de pistas para que as escolas (e sobretudo os liceus) tenham mais em conta as aspirações e as capacidades dos adolescentes:
- Aumentar a sua participação. Atualmente, os alunos do ensino secundário dispõem de muitas formas de se fazerem representar na organização escolar, mas não têm uma palavra a dizer naquilo que lhes interessa mais diretamente, ou seja, o que acontece durante as aulas. P. Meirieu propõe que se estabeleça um diálogo com os alunos sobre os métodos de aprendizagem, trabalhando com eles numa questão que os preocupa a todos: como podemos aprender melhor?
- Reequilibrar o tempo de trabalho e o tempo de escuta nos liceus. Na aula, os alunos passam todo o tempo a ouvir os professores e são pouco activos. P. Meirieu aponta aqui dois erros: por um lado, nunca aprenderam a ouvir, por isso é preciso ensiná-los; por outro lado, é preciso deixar de adiar o trabalho (atividade) para o tempo pessoal, fora da escola. Por outro lado, é preciso deixar de adiar o trabalho (atividade) para o tempo pessoal, fora da escola. É preciso propor-lhes actividades complexas e significativas que possam realizar sozinhos ou em grupo. Em suma, aprender fazendo.
- Relacionar as disciplinas escolares com as grandes questões que sempre habitaram a humanidade. A escola não tem inspiração no seu ensino! E os adolescentes não vêem o sentido das disciplinas. Por isso, é preciso ligá-las às questões fundamentais que as pessoas se colocam no mundo. A adolescência é precisamente o período em que estas questões emergem (o que é o tempo? o que é o amor? porque corremos todos para a morte? os objectos existem quando não estou a olhar para eles? Etc.), seria uma pena não lhes mostrar que o conhecimento disciplinar era a resposta, antes de a escolarização o esvaziar da sua substância fundamental.
É um texto que corresponde ao que esperamos de Meirieu: grandes ideias, uma lufada de ar fresco, por vezes com uma ligeira tendência para o exagero: nem todos os adolescentes vomitam a escola, e aclimatam-se bastante bem a ela, já que a maior parte deles chega a tirar o Bac que lhes permite sair... Uma leitura estimulante.
Adolescentes na escola: é possível? Philippe Meirieu
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