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Publicado em 07 de junho de 2023 Atualizado em 08 de junho de 2023

A vocação orienta sempre a escolha da profissão?

Escolher uma profissão: um dilema entre razão e paixão

Uma pessoa que tem de decidir qual o caminho a seguir para chegar ao cimo de uma montanha

Todos nós tivemos sonhos quando éramos jovens. Alguns queriam ser pilotos de avião, professores, astronautas e por aí fora. Alguns acabam por se tornar naquilo que sempre quiseram. Outros, porém, são apanhados pela realidade. Encontrar o seu próprio caminho pode dar sentido à vida, mas nem sempre é fácil numa sociedade em rápida mutação, impulsionada pelo mercado de trabalho.

"Encontrar o seu caminho" ou "ter uma vocação" são expressões que ouvimos com muita frequência, mas não nos debruçamos sobre o seu verdadeiro significado. Existem várias definições de vocação. A primeira está ligada a um chamamento divino. A segunda está mais próxima da ideia de uma profissão. É uma inclinação, um gosto ou uma preferência de qualquer género. Um terceiro significado refere-se a um destino privilegiado ou natural para alguém, devido às suas características. Finalmente, para o filósofo Aristóteles, a vocação encontra-se "onde os seus talentos e as necessidades do mundo se encontram".

Neste artigo, analisamos algumas das maneiras pelas quais a vocação profissional desaparece sob os alçapões.

A atracção do lucro

Exercer uma profissão que valoriza o seu talento é muito gratificante; ganhar bem a vida e beneficiar do reconhecimento social que advém do seu estatuto na sociedade é outra coisa completamente diferente. Num mundo em que o materialismo se impôs, a acumulação de bens materiais tornou-se a regra de ouro. A expansão da inflação pode também ser considerada como uma das causas desta nova situação. Nesta perspectiva, nem sempre se vai para uma profissão porque se tem talento para ela. Actualmente, muitas pessoas estão mais inclinadas para trabalhos que pagam bem. A partir desse momento, há uma distinção entre o trabalho da paixão e o trabalho da razão.

Escolher entre as duas opções nem sempre é fácil, mas tudo depende das suas aspirações e da sua realidade. Mesmo que, na maior parte das vezes, a realidade vença os sonhos. Assim, os franceses estão divididos entre a sua paixão e a sua razão. 56% dos franceses pensam que o trabalho é um constrangimento necessário para satisfazer as suas necessidades, enquanto 44% consideram que é sobretudo um meio de realização da sua vida. Estes dados do inquérito do IFOP (Instituto Francês de Opinião Pública) de Março de 2022 revelam que a maioria dos trabalhadores pensa, antes de mais, na satisfação das suas necessidades materiais. Assim, na procura de emprego, a razão tem precedência sobre a paixão. E, no entanto, a paixão é um dos sentimentos que dá ritmo ao mundo, insuflando-lhe algo de novo e agradável. Mas tudo parece estar a funcionar como se este motor do mundo se tivesse esgotado.

Um ofício para sobreviver

Quando se tem talento para um trabalho, mas se acaba por não o poder fazer por uma série de razões, deixa-se guiar pelo vento. Aproveita-se a menor oportunidade que se apresente, independentemente de estar predestinada para si ou não. O mais importante aqui é ter uma ocupação. Esta atitude é muito frequente em certos jovens dos Camarões que, por vezes, devido ao contexto socioeconómico marcado pela pobreza, acabam por deixar de sonhar e de se deixar guiar pela paixão. Os sonhos de infância não passam de vagas recordações. Têm de sobreviver, "manter-se de pé", "sobreviver", "trabalhar a todo o custo" (Ela, 1998).

Os jovens envolvem-se em actividades paliativas. É o caso, por exemplo, do "benskine " ou moto-táxi, uma actividade que se desenvolveu no sector informal em resposta à questão da sobrevivência. Segundo um estudo realizado por Yves Bertrand Djouda Feudjio, os jovens dizem não ter tido outras oportunidades. Foi por isso que se voltaram para este sector. Um dos entrevistados diz: "Estou nesta actividade porque não tive outra escolha. Se encontrasse outra coisa, teria de deixar o mototáxi".

Esta afirmação mostra que os jovens se lançam nesta actividade porque são, de certa forma, obrigados a isso. Não é de modo algum por paixão ou talento que acabam por se inserir neste sector de actividade. O contexto socioeconómico sobrepõe-se à vocação, palavra que está claramente ausente da mente das pessoas quando se trata de escolher uma profissão, uma vez que o mais importante é sobreviver.

Hoje em dia, o talento já não é um critério importante na escolha de uma carreira, uma vez que os constrangimentos sociais rapidamente trazem o indivíduo de volta à realidade. Se é verdade que é mais divertido fazer aquilo em que se é bom, o que nos leva a realizarmo-nos e até a encontrar o nosso lugar na sociedade, não deixa de ser verdade que podemos dar sentido à nossa vida com uma profissão com significado. Cabe a cada um encontrar o seu próprio caminho para um certo nível de realização. Afinal, se a sua profissão é útil à sociedade, talvez seja aí que deva encontrar um pouco de satisfação!


REFERÊNCIAS

CHEVANDIER Christian, 2009, "Vocation professionnelle: un concept efficient pour le XXe siècle?" online https://journals.openedition.org/abpo/499

DJOUDA F. Yves Bertrand, 2014, " les jeunes benskineurs au Cameroun : entre stratégie de survie et violence de l'Etat ", Autrepart, Vol 3, No 71, pp 97- 117, online https://www.cairn.info/revue-autrepart-2014-3-page-97.htm

ROY Marie, 2022, "Je n'ai pas choisi un métier passion, et alors?", Les Echos, online https://start.lesechos.fr/travailler-mieux/metiers-reconversion/je-nai-pas-choisi-un-metier-passion-et-alors-1789183



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