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Publicado em 11 de dezembro de 2024 Atualizado em 11 de dezembro de 2024

Aliviar a pressão com a dança

Um espelho do nosso interior, uma ponte para os outros e uma abertura para o mundo

fonte unsplash : dançarina

É preciso dançar como se ninguém estivesse a ver, amar como se nunca tivéssemos sido magoados, cantar como se ninguém estivesse a ouvir e viver como se fosse o paraíso na terra.
William Purkey

A dança, nas suas muitas formas e expressões, é muito mais do que uma arte ou uma técnica física. Encarna uma dinâmica profunda entre o eu, o outro e o mundo. Quer seja introspectiva como o butō japonês, colectiva como as danças circulares ou relacional como o tango, cada dança ensina-nos sobre o nosso eu interior, as nossas relações com os outros e o nosso lugar no cosmos.

A dança é uma linguagem universal em que os corpos, as respirações e até os batimentos cardíacos se sincronizam para criar uma harmonia única, por vezes fugaz, mas sempre reveladora.

Explorar o nosso interior através da dança

Algumas danças convidam-nos a mergulhar no nosso interior. Butō, desenvolvida no Japão do pós-guerra, ilustra esta busca interior. Lento, por vezes grotesco, este estilo evoca o inconsciente e as zonas mais obscuras da alma humana. Pede ao bailarino que sinta cada micro-movimento como um eco de uma emoção enterrada. Ao libertar-se dos quadros estéticos convencionais, butō torna-se uma meditação sobre o corpo. Esta introspeção, longe de ser egoísta, permite ao bailarino ligar-se melhor aos seus sentimentos, abrindo uma porta para uma autenticidade que alimenta a sua relação com o mundo.

A dança jazz, pelo contrário, joga com a energia, a improvisação e a expressividade. Destaca o seu interior vibrante, as suas alegrias e as suas dores. Nesta dança, cada movimento torna-se uma auto-afirmação, um grito do corpo que reflecte as tensões, esperanças e impulsos de uma vida interior vibrante. Esta expressão, por vezes libertadora, ilustra a forma como o corpo se pode tornar um recetáculo das nossas emoções mais intensas.

Relações com os outros através do corpo em movimento

A dança é também um terreno fértil para explorar as nossas relações com os outros. O tango, muitas vezes chamado "a dança das almas", é um exemplo emblemático desta dinâmica, onde o duende - uma comunhão com o destino - assume toda a sua força. Nesta dança argentina, dois parceiros unem-se numa ligação quase telepática, onde cada movimento se torna um diálogo silencioso. O tango exige uma escuta física total: uma pressão do braço, um deslocamento subtil do tronco, uma mudança impercetível de ritmo - tudo cria uma conversa íntima. Esta escuta mútua transcende as palavras, ensinando a importância da confiança e da atenção em qualquer relação humana.

As danças de salão, como a valsa ou o cha-cha, partilham esta dimensão relacional. No entanto, também incorporam um sentido de comunidade, uma vez que estas danças são frequentemente executadas em grupo. A sua coreografia codificada estrutura as trocas, deixando espaço para a improvisação. Estas danças recordam-nos que, para interagir bem com os outros, é necessário enquadrar-se numa estrutura comum, preservando ao mesmo tempo a nossa individualidade.

As danças circulares, praticadas em muitas culturas, acentuam ainda mais esta ligação colectiva. Na Palestina, as dabkas, ou no repertório folclórico dos Balcãs, estas danças criam uma harmonia em que cada indivíduo se mistura com o grupo. Os pés batem no chão em uníssono, criando uma batida colectiva que ressoa como um único coração. Estas danças recordam-nos que o indivíduo nunca se constrói sozinho, mas sempre numa relação de interdependência com uma comunidade.

Sincronizar corpos, respirações e batimentos cardíacos

Dançar significa sincronizar o nosso ser com os outros. Os dançarinos de dervixes rodopiantes oferecem uma ilustração impressionante desta sincronização. Girando ao ritmo de música espiritual, estes dançarinos entram num estado de transe em que os seus corpos, as suas respirações e até os seus batimentos cardíacos estão alinhados com uma intenção. Esta dança sufi ensina-nos que a harmonia interior se encontra frequentemente no alinhamento com forças superiores a nós próprios, quer se trate de uma comunidade ou de um universo espiritual.

A dança de grupo também acentua esta sincronização. Ao executarem movimentos em uníssono, os dançarinos partilham não só um ritmo, mas também uma respiração colectiva. Estudos de neurociência demonstraram que a sincronização dos corpos durante a dança pode sincronizar os ritmos cardíacos e as ondas cerebrais, reforçando os laços sociais e a empatia. Esta experiência partilhada torna-se então uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento pessoal, uma vez que nos ensina a sair do nosso isolamento e a abraçar uma profunda interconexão com os outros.

Dançar com o mundo: uma perspetiva ecológica

Por fim, a dança pode ser uma forma de nos reconectarmos com o mundo natural. Certos estilos, como a dança contemporânea inspirada na natureza, procuram imitar os fluxos e ciclos dos seres vivos. Os movimentos fluidos fazem lembrar o fluir dos rios, os saltos evocam o vento a levantar as folhas e as pausas encarnam a calma da terra depois de uma tempestade. Ao dançar, sentimo-nos parte de um ecossistema. Esta consciência desenvolve uma sensibilidade ecológica que é essencial num mundo em crise.

Ensinar o corpo em movimento

A dança é muito mais do que uma forma de arte; é uma forma de ensinar o corpo, um processo contínuo de aprendizagem sobre nós próprios, os outros e o mundo. Ensina-nos a riqueza do nosso ser interior, a complexidade das relações humanas e a nossa interdependência com o mundo vivo.

Quer seja praticada em silêncio, em dueto ou em grupo, cada dança convida-nos a um diálogo íntimo e universal. Ao sincronizar os nossos corpos, as nossas respirações e os nossos batimentos cardíacos, a dança recorda-nos que somos seres singulares e colectivos, enraizados num cosmos vibrantemente interligado.

Fontes

Berque, A. (2019). Poétique de la Terre: Histoire naturelle et histoire humaine, essai de mésologie. Belin.
https://pantoute.leslibraires.ca/livres/poetique-de-la-terre-augustin-berque-9782701190068.html

Varela, F. J., Thompson, E., & Rosch, E. (1991). The embodied mind: cognitive science and human experience. MIT Press. https://amzn.to/4fidG3e

Louppe, L. (1997). Poética da dança contemporânea. Contredanse. - https://amzn.to/3P837Fj

McNeill, W. H. (1995). Keeping together in time: dance and drill in human history. Harvard University Press. - https://amzn.to/4fbwhOn


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