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Publicado em 26 de fevereiro de 2025 Atualizado em 26 de fevereiro de 2025

Mecanismos de influência: compreender o poder dos influenciadores

As alavancas de influência psicológica e educativa

Mecanismos de marketing de influência

Muitos utilizadores das redes sociais já fizeram uma compra por recomendação de um influenciador. Na maioria das vezes, nem sequer questionamos a fiabilidade do conselho dado. Por detrás dos vídeos perfeitamente editados, das histórias cativantes e dos milhões de seguidores, esconde-se um poder insidioso, capaz de moldar opiniões, desejos e comportamentos em grande escala.

Como é que os influenciadores conseguem exercer um tal domínio sobre as nossas mentes e porque é que esta questão deve preocupar os profissionais do mundo da educação?

Compreender estes mecanismos não é apenas uma curiosidade intelectual: para o mundo da educação, é uma questão de dar aos alunos as ferramentas para se protegerem contra uma influência por vezes manipuladora.

Embora os influenciadores possam também influenciar positivamente os comportamentos, é preciso ter em conta o que os move: o dinheiro ou o desejo de transmitir e partilhar.

As ferramentas da influência: como os influenciadores cativam o seu público


Os influenciadores, sejam eles humanos ou virtuais, não devem o seu sucesso ao acaso. A sua capacidade de cativar e moldar comportamentos baseia-se em técnicas habilmente orquestradas, combinando psicologia, criatividade e estratégia.

E funciona, porque 84% das marcas dizem que o marketing de influência é eficaz. O storytelling, o marketing emocional e a apresentação tendenciosa dos factos formam um arsenal poderoso que, se mal compreendido, pode escapar à análise crítica das audiências, sobretudo dos jovens. Vamos decifrar esses mecanismos para uma melhor compreensão.

Storytelling: a arte de contar histórias convincentes


O storytelling está no centro da influência. Trata-se de construir uma narrativa que ultrapassa a simples transmissão de informações para criar uma ligação emocional com o público. De acordo com Green e Brock (2000), no seu estudo sobre a Teoria dos Transportes, uma narrativa persuasiva transporta os indivíduos para um mundo onde se identificam com as personagens, aumentando assim a sua recetividade às mensagens transmitidas.

Os influenciadores exploram esta capacidade de imersão do seu público para reforçar o seu efeito. Veja-se o exemplo de Lil Miquela, uma influenciadora virtual seguida por milhões de pessoas no Instagram. Criada pela empresa Brud em 2016, partilha histórias pessoais que misturam moda, música e reflexões existenciais, como na sua colaboração com a Prada em 2018. Apesar de ser um avatar digital, o seu storytelling simula uma vida autêntica, captando a atenção e a empatia dos seus seguidores.

Um exemplo incrível de storytelling foi a escalada do Evereste pela InoxTag, um vídeo que gerou mais de 40 milhões de visualizações :

Marketing emocional: jogar com os sentimentos


O marketing emocional baseia-se na exploração das emoções - medo, alegria, nostalgia ou sentimento de pertença - para influenciar as escolhas. Este mecanismo baseia-se numa psicologia simples: as decisões humanas são mais guiadas pelas emoções do que pela razão.

Jonah Berger, no seu livro Contagious, salienta que os conteúdos que suscitam emoções intensas, como a admiração ou a ansiedade, têm 30% mais probabilidades de serem partilhados.
Os influenciadores compreenderam bem este facto: um vídeo choroso sobre uma causa social ou uma fotografia que celebra uma conquista pessoal activam poderosas alavancas emocionais.

Na sala de aula, os professores podem recorrer a esta abordagem para motivar, ao mesmo tempo que ensinam os alunos a reconhecer quando as suas emoções estão a ser manipuladas.

Apresentação tendenciosa dos factos: quando a verdade se torna subjectiva


Uma técnica comum é apresentar os factos de forma tendenciosa, utilizando a omissão selectiva, o exagero ou o enquadramento tendencioso. Esta prática, embora subtil, altera a perceção da realidade. Por exemplo, um influenciador que promove um produto pode omitir os seus defeitos ou exagerar os seus benefícios, criando uma visão idealizada.

No seu relatório Journalism, Fake News & Disinformation, a UNESCO alerta para este tipo de estratégia. Esta estratégia contribui para a desinformação e para a confusão dos pontos de referência críticos dos consumidores.

O risco é claro: um público desinformado pode perder a capacidade de distinguir a verdade da falsidade. Para os professores, este facto sublinha a necessidade urgente de ensinar a analisar as fontes e as intenções subjacentes às mensagens influentes.

A psicologia por detrás da influência: explorar as falhas humanas


A influência não se baseia apenas em técnicas de comunicação, mas também numa compreensão pormenorizada das falhas psicológicas humanas. Os influenciadores, quer actuem no TikTok, no Instagram ou no YouTube, exploram estas vulnerabilidades para moldar percepções e comportamentos. Vieses cognitivos, desejos sociais e abusos éticos formam um trio formidável que, se não for controlado, pode transformar a admiração em manipulação.

Vieses cognitivos: atalhos mentais que podem ser manipulados


Os enviesamentos cognitivos, os atalhos mentais que simplificam a forma como processamos a informação, são poderosas alavancas para os influenciadores. Daniel Kahneman, em Thinking, Fast and Slow, descreve o enviesamento de confirmação - a tendência para favorecer a informação que confirma as nossas crenças - como um mecanismo universal.

O efeito de halo, em que uma primeira impressão positiva (por exemplo, a atratividade de um influenciador) colore qualquer perceção subsequente, e o efeito de ancoragem, que nos leva a confiar numa informação inicial apresentada (como um preço inicial elevado), também são explorados. No Instagram, um influenciador pode reforçar a sua credibilidade publicando uma fotografia lisonjeira seguida de uma crítica de um produto: o efeito de auréola faz o resto. Estes preconceitos, muitas vezes inconscientes, amplificam a persuasão, tornando as mensagens mais convincentes sem que o público as questione.

Desejos sociais: a necessidade de pertencer e de ser reconhecido


As redes sociais amplificam desejos profundamente humanos: pertencer a um grupo e ser reconhecido. De acordo com um estudo do Pew Research Center de 2018, 70% dos adolescentes sentiram a pressão de se conformar às normas sociais em linha, um fenómeno exacerbado por plataformas como o TikTok, que tem um público muito jovem.

Os influenciadores jogam com esta necessidade criando comunidades em torno de tendências ou produtos, oferecendo aos seus seguidores um sentimento de inclusão.

As consequências são duas: maior conformidade, em que os indivíduos seguem cegamente as recomendações, e vulnerabilidade à manipulação, porque o desejo de pertencer tem precedência sobre o juízo crítico.

Quando a influência se torna maliciosa: abusos éticos


Embora a influência possa ser explorada intencionalmente, também pode ser abusada do ponto de vista ético. Notícias falsas, espalhadas por influenciadores pagos para semear a confusão, como mostra o exemplo documentado pelo The Guardian em 2021 sobre campanhas eleitorais. O paradoxo é que aqueles que se sentem mais bem equipados para separar o verdadeiro do falso são os que mais facilmente caem em armadilhas.

Os jovens, particularmente receptivos devido à sua utilização intensiva das redes, são os mais afectados. A sua falta de filtros críticos face a conteúdos tendenciosos pode ter um efeito duradouro nas suas crenças e escolhas, tornando essencial o apoio educativo.

Influenciadores virtuais: um paradoxo


Os influenciadores virtuais (VI), avatares criados pela inteligência artificial, encarnam um paradoxo fascinante e preocupante. O seu sucesso baseia-se numa aparência impecável e num storytelling que atrai milhões de subscritores, apesar da sua natureza fictícia.

Ao contrário dos influenciadores humanos, a sua credibilidade não depende da autenticidade real, mas de uma ilusão controlada pelas marcas. A sua vantagem: nunca se desviam do guião, evitando escândalos humanos. Mas este controlo total representa um perigo. A sua perfeição artificial explora os preconceitos cognitivos e os desejos sociais. Para os jovens, esta influência invisível esbate a linha entre a realidade e a ficção, amplificando a desinformação e a manipulação ética.

Louise De Laet Derache (2021) observa que os influenciadores virtuais, apesar da sua natureza artificial, conseguem gerar uma perceção de "presença social", reforçando um sentimento de pertença entre os seus subscritores. Essa necessidade de aceitação ou validação social, exacerbada pelas redes, torna o público vulnerável a essas estratégias.

O papel das escolas: formar mentes críticas e resilientes


Perante a omnipresença de influenciadores em plataformas como o TikTok ou o Instagram, os educadores têm um papel crucial a desempenhar. Formar mentes críticas e resilientes. Devemos também encarar este facto como uma oportunidade para enriquecer os métodos de ensino, inspirando-nos em estratégias que cativam os jovens.

Ensinar o pensamento crítico: um escudo contra a manipulação


O pensamento crítico é uma arma essencial para contrariar os mecanismos de influência. Richard Paul e Linda Elder, em Critical Thinking: Tools for Taking Charge, destacam alguns métodos fundamentais:
  • questionar a fiabilidade das fontes
  • analisar as intenções subjacentes
  • distinguir factos de opiniões.
Estas competências são vitais. Um exercício prático na sala de aula pode envolver a desconstrução da mensagem de um influenciador: por exemplo, analisar uma publicação que promove um produto. Os alunos examinam quem está por detrás da conta (uma marca?), que factos estão a ser omitidos e que preconceitos emocionais estão a ser solicitados. Este exercício, enraizado na sua vida digital quotidiana, torna-os mais aptos a detetar as armadilhas da persuasão.

Inspirar-se nos influenciadores: técnicas para ensinar


Os influenciadores são excelentes na arte de cativar e os educadores podem inspirar-se neles. A narração de histórias e o marketing emocional, os pilares do seu sucesso, podem transformar uma aula numa experiência memorável. As histórias emocionais melhoram a retenção dos alunos. As anedotas pessoais, desde que estejam ligadas a um conceito a aprender, despertam frequentemente a curiosidade.

Proteger os alunos: prepará-los para resistir


A proteção dos alunos exige uma tomada de consciência precoce dos preconceitos cognitivos e das estratégias de influência. Desde muito cedo, os alunos, que passam horas por dia nas redes sociais, devem aprender a reconhecer as alavancas psicológicas exploradas pelos influenciadores.

Desde 2023, o Conselho da Europa tem vindo a recomendar que a educação para os media seja integrada nos currículos escolares para promover uma cidadania digital responsável. Isto inclui debates sobre a necessidade de pertença, que é exacerbada pelas redes, e os riscos das notícias falsas. Ao capacitarem os jovens para questionarem o que consomem em linha, os educadores não estão apenas a protegê-los: estão a prepará-los para se tornarem actores esclarecidos num mundo digital.


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