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Publicado em 19 de março de 2025 Atualizado em 19 de março de 2025

Como um pedaço de ouro no deserto

Como devolver o valor às escolas face à IA e às novas necessidades

Útil no deserto

Se estiveres perdido no deserto, com sede, e tiveres uma moeda de ouro e um viajante te oferecer para a trocar por um litro de água. Provavelmente aceitarás. Mas quanto é que vale a tua moeda de ouro neste momento? Quase nada. O seu valor, embora elevado noutros contextos, cai por terra perante a sua necessidade vital de sobrevivência.

Este exemplo ilustra uma verdade fundamental: o valor de um objeto depende da sua utilidade num determinado contexto. Nos tempos que correm, em que influenciadores, desportistas e outros empreendedores da Web ganham dinheiro sem terem estudado, a educação parece estar a perder o seu valor aos olhos de muitas pessoas. Porquê? Porque já não responde às suas necessidades, suplantada por alternativas como a Internet ou a inteligência artificial (IA). Vamos tentar responder à seguinte pergunta: como é que a educação pode demonstrar e aumentar o seu valor percebido neste mundo em mudança?

Compreender o valor relativo: um conceito universal mas pessoal

O valor relativo é um conceito que continua a ser difícil de compreender para algumas pessoas. Tomemos o exemplo da moeda de ouro no deserto: numa sociedade de mercado, simboliza a riqueza; num deserto, torna-se uma mera sucata de metal, incapaz de satisfazer a necessidade imediata de sobrevivência. Outro exemplo: o valor de uma área natural pode ser percepcionado de forma diferente: para um ecologista, reside na sua biodiversidade; para um agricultor, na sua capacidade de produzir colheitas.

O que é valioso para um ser humano não o é necessariamente para outro, que tem hábitos e costumes diferentes. O valor é, portanto, subjetivo e contextual, depende das necessidades, das prioridades e das circunstâncias.

Apliquemos este raciocínio à educação. Se certas comunidades ou indivíduos atribuem pouco valor à escola, isso pode dever-se ao facto de considerarem que ela não responde às suas necessidades ou aspirações imediatas. Mas será que é mesmo assim? E se esta perceção se basear num mal-entendido sobre o que a educação pode realmente oferecer?

A diferença entre preço e valor

Vamos distinguir entre valor e preço, dois conceitos que são frequentemente confundidos, mas que são fundamentalmente diferentes. O preço é uma medida objetiva, expressa em termos monetários. O preço reflecte o custo de um objeto ou serviço num determinado mercado.

O valor, por outro lado, é subjetivo e contextual, determinado pela utilidade ou benefício que um indivíduo ou uma sociedade retira do mesmo.

Por exemplo, uma moeda de ouro tem um preço fixo no mercado, mas o seu valor torna-se zero no deserto quando confrontado com uma necessidade vital de água. Do mesmo modo, o preço de uma educação pode ser elevado, mas o seu valor depende do que ela realmente traz: competências, emancipação intelectual ou um futuro melhor.

Esta distinção ajuda-nos a compreender por que razão algumas pessoas desvalorizam a escola, considerando o seu preço elevado em relação ao valor que lhe atribuem no seu contexto pessoal. Podemos também reconhecer que nem todos os diplomas têm necessariamente o mesmo valor, porque são úteis de formas diferentes.

Os valores veiculados pela escola

Historicamente, a escola tem sido um veículo de valores fundamentais:

  • transmissão de conhecimentos
  • a igualdade de oportunidades
  • formação de cidadãos esclarecidos.

O seu objetivo é dotar os indivíduos dos instrumentos intelectuais, sociais e éticos de que necessitam para se desenvolverem e contribuírem para a sociedade. Mas estes valores, embora ideais, não são universais. São influenciados pelo contexto sócio-cultural em que as escolas funcionam. Por exemplo, nalguns países, a educação pode ser orientada para valores conservadores, favorecendo a tradição ou a religião, enquanto noutros dá ênfase à inovação e ao pensamento crítico.

Os actores que financiam a escola também desempenham um papel importante. Quando o Estado ou as empresas privadas investem na educação, orientam frequentemente as prioridades para objectivos específicos. Atualmente, muitos sistemas educativos privilegiam as disciplinas STEM (ciências, tecnologia, engenharia, matemática) para responder às necessidades do mercado de trabalho, por vezes em detrimento de uma educação que, até há pouco tempo, era considerada mais humanista, centrada nas artes, na filosofia ou na educação cívica.

Tomemos o exemplo da Finlândia, frequentemente citada como modelo: o seu sistema educativo privilegia o bem-estar dos alunos e a aprendizagem em colaboração, reflectindo uma visão igualitária da sociedade. Pelo contrário, em países como os Estados Unidos, a pressão para produzir licenciados imediatamente empregáveis pode reduzir a educação a uma mera preparação profissional.

Num mundo globalizado, esta diversidade levanta uma questão: os valores da escola são universais ou fragmentados? E, sobretudo, como manter a sua pertinência face a expectativas tão variadas?

A desvalorização da educação: um sinal de novas necessidades?

Se a escola e os professores estão a perder o seu valor aos olhos de alguns, é muitas vezes porque são vistos como estando fora de contacto com as necessidades reais. As críticas são muitas: currículos considerados demasiado rígidos, falta de preparação para a vida profissional, incapacidade de adaptação à evolução tecnológica.

Neste contexto, a Internet e a IA surgem como alternativas atractivas. Com um acesso praticamente ilimitado ao conhecimento, cursos em linha gratuitos e ferramentas de aprendizagem personalizadas, para quê preocupar-se com uma sala de aula ou um professor?

No entanto, estas alternativas têm os seus limites. A Internet, embora extremamente rica, é um espaço não estruturado onde prospera a desinformação. A IA, por seu lado, pode dar respostas rápidas, mas não tem a capacidade de guiar, inspirar ou criar uma ligação humana, factores essenciais para a aprendizagem.

É preciso também ter em conta que a aprendizagem autónoma exige uma disciplina e uma maturidade que poucas pessoas possuem, sobretudo os jovens. Este facto não impediu o desenvolvimento de conceitos como o MBA pessoal: o conceito de Personal MBA (PMBA), tal como apresentado no sítio Web https://personalmba.com/, é uma abordagem alternativa à educação empresarial tradicional, em particular aos dispendiosos programas de MBA (Master of Business Administration) oferecidos pelas escolas de gestão. Criado por Josh Kaufman, o Personal MBA baseia-se na ideia de que é possível adquirir um domínio dos princípios fundamentais da atividade empresarial sem passar por uma formação académica formal, concentrando-se na autoeducação através da leitura de livros-chave, da prática e da aplicação concreta de conceitos.

Ao mesmo tempo, os professores estão a sofrer uma erosão do seu estatuto social. Outrora figuras de autoridade respeitadas, são cada vez mais criticados e até desvalorizados num mundo em que a tecnologia parece capaz de os substituir. Mas esta desvalorização é perigosa. Com efeito, embora a educação também seja adquirida fora da escola, através da experiência, das viagens e da interação, a escola continua a ser um espaço único para estruturar o conhecimento, desenvolver o pensamento crítico e criar laços sociais.

Como aumentar e reconhecer o valor da educação?

Para valorizar a educação, as escolas, os professores e as universidades devem adaptar-se às necessidades actuais, preservando os seus fundamentos.

  • Em primeiro lugar, devem integrar as tecnologias: IA, ferramentas digitais, realidade virtual. Isto deve ser feito não como substitutos, mas como complementos do ensino humano. Por exemplo, a IA pode personalizar a aprendizagem, enquanto os professores continuam a ser essenciais para supervisionar, motivar e desenvolver o pensamento crítico.

  • Em segundo lugar, temos de reforçar o papel dos professores. Isto significa formação contínua para os dotar das competências necessárias para a era digital. É também necessário um maior reconhecimento social.

  • Em terceiro lugar, temos de sensibilizar o público para o valor da educação a longo prazo. As campanhas de comunicação, as parcerias com as famílias e as comunidades locais e os testemunhos de antigos alunos podem servir para lembrar que a educação é um investimento sustentável. Já existem exemplos inspiradores: as universidades de Singapura, por exemplo, integraram a inovação tecnológica e o ensino colaborativo para se tornarem um modelo global.

A necessidade de educação

O valor da educação, como o de qualquer objeto ou ideia, depende do que ela traz para um determinado contexto.

A sua desvalorização é um sinal de alarme. Mas também pode ser vista como uma oportunidade. Perante a concorrência da Internet e da IA, as escolas, os professores e as universidades devem demonstrar a sua pertinência, adaptando-se às necessidades actuais, mas recordando o seu papel único: estruturar o conhecimento, formar cidadãos e criar laços humanos.

A educação continua a ser um pilar essencial para a construção de um futuro esclarecido, mas tem de se reinventar para o demonstrar. Isto levanta uma questão para todos nós: como é que podemos ajudar a devolver à educação o valor que ela merece?


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