"O burro é um burro, não um cavalo degenerado" Buffon
Há companheiros de caminho que não falam, que não prescrevem, que não teorizam sobre a aprendizagem. Eles caminham. Observam. Esperam. Os burros pertencem a esta rara categoria, ensinando através da sua forma de estar no mundo. Reduzidos durante muito tempo a uma imagem utilitária ou folclórica (Pastoureau 2025), emergem agora como mediadores únicos da aprendizagem, inestimáveis para compreender o que significa avançar de forma diferente, individual, colectiva e em relação ao ambiente.
O burro não se limita a seguir um caminho: sente-o, avalia-o e negoceia-o. Esta relação subtil com o terreno, os desníveis e as tensões do grupo transforma a caminhada numa situação de aprendizagem incorporada. Nos itinerários de aprendizagem realizados em projectos como o Rêve de Dan'A, o burro não desempenha apenas um papel decorativo: reconfigura a dinâmica do grupo e convida todos a reverem a sua relação com o poder, a tomada de decisões, a confiança e o compromisso.
1. O burro como mestre da lentidão: aprender a ajustar o ritmo
Uma das primeiras lições que ele transmite é a do ritmo. Os burros não se apressam. A sua lentidão não é inércia nem resistência: é coerência ecológica. Ele presta atenção aos seus pés. Avança quando o terreno o permite, pára quando sente tensão e retoma quando a relação é restabelecida.
Este ritmo particular actua como uma pedagogia silenciosa. O ser humano, habituado à urgência ou ao desempenho, descobre uma outra forma de observar o mundo: por ajustamento e não por injunção. Andar com um burro impõe uma redução da velocidade que abre um espaço interior. Permite-nos ouvir o que se perde nos nossos ritmos demasiado rápidos: os micro-sinais do nosso ambiente, as nossas sensações corporais, os movimentos subtis das nossas emoções.
A investigação sobre a cognição incorporada (Varela, Thompson & Rosch, 1993) mostra que o abrandamento favorece o acesso a camadas mais finas de perceção. O burro torna-se assim um professor de atenção.
2. O caminho como um ambiente partilhado: aprender com, não contra
O burro aprende o caminho ao mesmo tempo que nós, mas não da mesma maneira. Ele depende do chão, do vento, dos cheiros e do apoio. Esta relação sensível com o meio ambiente está em sintonia com a noção de mediância proposta por Augustin Berque (2010): a relação não une um sujeito e um meio ambiente, mas um ser vivo e o seu meio ambiente numa trajetória partilhada [ida e volta entre dois pólos].
Andar com um burro significa experimentar esta co-emergência da viagem:
- o caminho já não é uma simples linha,
- torna-se um ambiente atravessado e percorrido,
- um espaço onde se tecem decisões, atenções e ajustamentos mútuos.
Quando o burro hesita, obriga o grupo a olhar de forma diferente:
- O que é que ele percebe que nós ainda não percebemos?
- Que micro-relevo, que tensão relacional, que cansaço do terreno ignorámos?
Com sentidos muito mais apurados do que os nossos, o burro torna-se o revelador dos pontos cegos, aquele que mostra o que os humanos, demasiado concentrados no objetivo, não vêem.
3. O burro, uma ética de cooperação: aprender a relação correta
O burro não resiste à força. A coerção produz resistência. A cooperação, pelo contrário, produz disponibilidade. Esta abordagem realça um princípio relacional importante para a facilitação e a formação: a qualidade da relação e dos cuidados determina a qualidade da ação.
Para que um burro aceite avançar, ele precisa de :
- sentir a intenção,
- ser capaz de identificar um ritmo comum,
- sentir a segurança da relação,
- ser reconhecido como um parceiro.
Estes elementos estão de acordo com o trabalho contemporâneo sobre segurança psicológica (Edmondson, 2019) e sobre a dinâmica relacional na aprendizagem de adultos (Carré, 2020). O burro cria um ambiente onde estes princípios se tornam tangíveis.
Actua como um espelho relacional:
- Se puxarmos, ele congela.
- Se concordarmos, ele avança.
- Se nos agitarmos, ele abranda.
- Se respirarmos, ele acalma-se.
O burro ensina a postura facilitadora por excelência: aquela que não força nada e permite que aconteça o que deve surgir.
4. Aprender caminhando: o burro e a pedagogia da viagem
Nos nossos itinerários educativos, o burro não faz apenas parte do cenário: ele estrutura o processo de aprendizagem. A sua presença favorece experiências de :
- ressonância com o corpo
- a escuta subtil dos sinais fracos
- estabilizar a atenção,
- a tomada de decisões colectivas,
- a gestão das tensões.
Cada etapa torna-se uma experiência microexplicativa: o corpo compreende antes da fala. A entrevista explicativa (Vermersch, 2012), utilizada na nossa investigação para realçar o poder do ser vivo ao serviço da aprendizagem, encontra aqui um terreno natural: o movimento lento traz à tona a experiência vivida, permitindo-nos revisitá-la e apreender os seus gestos finos. O burro actua como mediador, permitindo o acesso à experiência tácita e reforçando a aprendizagem reflexiva.
5. O burro como suporte para grupos: aprender a trabalhar em equipa
Os grupos que andam com um burro experimentam uma transformação gradual na sua dinâmica. O grupo aprende a :
- sincronizar,
- distribuir esforços,
- acolher as fragilidades,
- ajustar responsabilidades,
- cooperar sem dominar.
O burro torna visível o que muitas equipas têm dificuldade em perceber numa sala de formação tradicional: o trabalho do coletivo não é um alinhamento de indivíduos, mas uma marcha partilhada. Através do seu ritmo e carácter, o burro expõe tensões, revela líderes efémeros, abre espaços de discussão e convida a formas de coordenação mais lentas e robustas.
A experiência de caminhar com um ou mais burros torna-se um laboratório vivo, uma demonstração de que a cooperação não se ensina com conceitos mas com gestos, situações e ajustamentos concretos. (Ver a experiência do laboratório de inovação Rêve de Dan'A).
6. O caminho como transformação: aquilo em que o burro nos ajuda a tornarmo-nos
No final de uma viagem com um burro, os participantes relatam frequentemente :
- uma relação mais calma com o tempo,
- uma perceção mais nítida do ambiente
- uma confiança renovada nos processos colectivos,
- uma melhor compreensão de si próprios,
- uma compreensão mais incorporada do que significa fazer parte de uma equipa.
O burro transmite uma inteligência do vivo: uma maneira de se situar, de se ajustar, de entrar em relações. Coloca todos no estado de espírito certo, nem passivo nem forçado, onde avançamos não porque somos empurrados, mas porque sentimos que o ambiente, o grupo e o animal nos convidam a isso. Ensina aquilo a que Berque chama trajectividade: a arte de co-emergir com o que nos rodeia. O burro não é um guia: é um companheiro de caminho, mesmo que seja uma parte do caminho até si. Ele recorda-nos uma verdade simples: aprendemos realmente quando aceitamos ser afectados pelo mundo e caminhamos ao nosso próprio ritmo.
Bibliografia
Berque, A. (2010). Médiance. De milieux en paysages. Belin.
Carré, P. (2020). Apprendre et faire apprendre. Dunod.
Edmondson, A. (2019). A organização sem medo. Wiley.
Pastoureau, M. (2025), L'âne une histoire culturelle. Les éditions du seuil
Varela, F. J., Thompson, E., & Rosch, E. (1993). The embodied mind: Cognitive science and human experience. MIT Press.
Vermersch, P. (2012). L'entretien d'explicitation (7ª ed.). ESF.
Le rêve de Dan'A laboratoire d'innovation pédagogique https://apprendre-autrement.org/reve-dana/
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