A questão da "auto-confiança", entendida como a confiança colectiva na capacidade de um grupo para agir, aprender e transformar uma situação, tem vindo a assumir uma importância crescente na investigação contemporânea.
Num mundo caracterizado por incertezas ecológicas, tecnológicas e sociais, os problemas que as sociedades enfrentam ultrapassam de longe a capacidade de qualquer indivíduo. A confiança já não pode ser considerada apenas como um sentimento pessoal; está a tornar-se uma propriedade relacional e colectiva, ligada à capacidade de um grupo reconhecer os seus recursos, cooperar e aprender em conjunto.
Os trabalhos recentes no domínio das ciências da educação, da sociologia das organizações e da psicologia social permitem compreender esta dinâmica em três fases:
- a construção da confiança colectiva na experiência partilhada,
- as condições sociais que a tornam possível e
- as transformações que produz na capacidade de ação dos grupos.
Melhor do que sozinho
Um primeiro conjunto de investigações mostra que a confiança colectiva se constrói, antes de mais, através da experiência partilhada da ação. Os grupos desenvolvem confiança em si próprios quando têm experiências repetidas da sua capacidade de resolver problemas em conjunto.
Esta dinâmica está próxima do que a psicologia social designa por eficácia colectiva, ou seja, a crença partilhada de um grupo na sua capacidade de organizar e realizar as acções necessárias para atingir um objetivo comum. Estudos recentes mostram que os grupos que experimentaram uma cooperação bem sucedida desenvolvem uma perceção mais forte do seu poder de ação, o que reforça a sua capacidade de enfrentar novos desafios (Frazier, Fainshmidt, Klinger, Pezeshkan & Vracheva, 2021).
A confiança em nós próprios não nasce, portanto, de um discurso mobilizador, mas de uma experiência vivida de cooperação. Constrói-se em situações em que as contribuições individuais se conjugam para produzir um resultado que ultrapassa as capacidades de cada um.
Esta dinâmica é particularmente visível nos contextos de aprendizagem colectiva, onde as interações permitem transformar os conhecimentos individuais em recursos partilhados. Nestas situações, a confiança colectiva é alimentada por um sentimento de interdependência: todos descobrem que podem contar com os outros para complementar a sua própria capacidade de ação. No entanto, a auto-confiança não depende apenas da experiência passada.
Comunicação aberta
Um segundo conjunto de estudos sublinha a importância das condições relacionais e organizacionais que permitem aos grupos desenvolver esta confiança.
Trabalhos recentes sobre segurança psicológica mostram que os grupos aprendem e cooperam mais quando têm um clima relacional que permite a expressão de ideias, dúvidas e erros (Edmondson & Lei, 2024).
Nestes contextos, os membros do grupo podem correr riscos interpessoais sem receio de serem desacreditados, o que favorece a exploração colectiva dos problemas. A autoconfiança parece, portanto, ser uma propriedade emergente de um ambiente relacional onde existe um fluxo livre de ideias e onde as contribuições são reconhecidas.
A investigação sobre equipas inovadoras confirma que os ambientes que encorajam o reconhecimento mútuo, a cooperação e a diversidade cognitiva reforçam a capacidade dos grupos para desenvolverem a confiança colectiva na sua inteligência partilhada.
Por outro lado, as organizações altamente hierarquizadas ou centradas no desempenho individual podem minar esta confiança colectiva, incentivando a competição em vez da cooperação. Nesses contextos, os indivíduos podem ser competentes, mas o grupo tem dificuldade em ver-se como capaz de atuar em conjunto.
Uma alavanca social
Finalmente, uma terceira vertente da investigação salienta os efeitos transformadores da confiança colectiva na capacidade de ação dos grupos.
Quando os grupos desenvolvem confiança em si próprios, tornam-se capazes de explorar situações incertas e produzir formas de inteligência distribuída. A investigação contemporânea sobre a colaboração mostra que as equipas com um elevado nível de confiança colectiva desenvolvem mais comportamentos de aprendizagem, como a partilha de informações, a experimentação e a reflexão conjunta sobre os erros (Akkerman & Bakker, 2022).
Esta dinâmica altera a forma como os grupos abordam problemas complexos. Em vez de procurarem soluções individuais, desenvolvem processos de co-construção que integram múltiplas perspectivas. A confiança em nós actua então como um amplificador da inteligência colectiva: facilita a circulação de ideias, a combinação de conhecimentos e a capacidade do grupo para se adaptar a ambientes em mudança.
Nesta perspetiva, a confiança colectiva não é apenas uma disposição psicológica; é um recurso social que apoia a aprendizagem e a inovação organizacionais. Permite que os grupos entrem numa dinâmica transformadora em que a incerteza se torna um espaço de exploração e não uma ameaça.
Infraestrutura social vital
Em última análise, a confiança em nós não pode ser reduzida a uma simples soma de confianças individuais. Trata-se de uma qualidade relacional emergente que surge quando os indivíduos descobrem, através da experiência, que podem pensar, decidir e atuar em conjunto. Em ambientes marcados pela incerteza, esta confiança colectiva torna-se um recurso estratégico: permite que os grupos se aventurem em situações em que nenhum conhecimento isolado é suficiente. Autoriza a exploração, apoia a tomada de iniciativas e torna possível a aprendizagem partilhada.
Esta perspetiva conduz a uma mudança na forma como as organizações e as instituições abordam a questão da confiança. Em vez de procurar reforçar a confiança individual através de injunções para se ser seguro de si ou motivado, o desafio consiste em conceber ambientes onde as pessoas possam experimentar em termos concretos o seu poder partilhado para agir.
Os mecanismos de diálogo, as práticas de reflexão colectiva e as formas de cooperação que reconhecem a pluralidade dos contributos desempenham aqui um papel decisivo. A confiança em nós próprios constrói-se menos em palavras do que em situações em que cada um pode experimentar que a inteligência do grupo ultrapassa as capacidades dos seus membros individuais.
Nesta perspetiva, a auto-confiança abre uma questão mais vasta para as sociedades contemporâneas. À medida que os desafios se tornam mais sistémicos - transformações ecológicas, mudanças tecnológicas, reestruturação social - a capacidade de os grupos se considerarem capazes de aprender e agir em conjunto torna-se um pré-requisito para a transformação.
A confiança colectiva não é apenas um clima relacional favorável; pode muito bem tornar-se uma das infra-estruturas invisíveis das sociedades de aprendizagem.
Referências
Akkerman, S. F., & Bakker, A. (2022). A transposição de fronteiras e a aprendizagem em contextos profissionais. Revista de Investigação Educacional, 92(4), 548-584.
Edmondson, A., & Lei, Z. (2024). Psychological safety: The history, renaissance, and future of an interpersonal construct. Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, 11, 23-48.
Frazier, M. L., Fainshmidt, S., Klinger, R. L., Pezeshkan, A., & Vracheva, V. (2021). Segurança psicológica: Uma revisão meta-analítica e extensão. Psicologia do Pessoal, 74(1), 113-165.
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