O vocabulário do coaching diz, muitas vezes, mais do que os seus métodos. Por trás de expressões que se tornaram familiares, como «pergunta poderosa», «sair da zona de conforto», «efeito espelho» ou «reorientação», delineia-se uma certa forma de conceber o ser humano, a mudança e a relação de acompanhamento.
As palavras não são aqui meras ferramentas descritivas. Funcionam como reveladores de um imaginário profissional. Orientam as práticas, as atitudes e, por vezes, até os efeitos produzidos nas pessoas acompanhadas.
Desde a década de 1990, o coaching tem-se desenvolvido num contexto marcado pela ascensão das lógicas de desempenho, de adaptação rápida e de responsabilização individual. A linguagem utilizada reflete essa história. Recorre massivamente ao desporto, à mecânica, à estratégia militar ou à psicologia do desempenho.
No entanto, há cerca de uma década que outro léxico tem vindo a emergir progressivamente nos meios da facilitação, das práticas narrativas, do diálogo ou das abordagens somáticas. As metáforas do impacto e da percussão cedem aí parcialmente o lugar às da escuta, do limiar, da atenção ou da ressonância.
O coaching como tecnologia do movimento
Uma das expressões mais emblemáticas do coaching contemporâneo é a da «pergunta poderosa». Refere-se a uma pergunta capaz de provocar uma tomada de consciência ou uma mudança interior. Em muitos relatos profissionais, esta pergunta funciona como um «estímulo». Alguns profissionais chegam mesmo a falar de «golpe de martelo», uma imagem reveladora de uma intervenção destinada a quebrar uma crença limitante ou a atingir um ponto cego.
Este vocabulário remete para uma conceção da mudança como ruptura. É preciso «desbloquear», «remover os obstáculos», «sair da zona de conforto», «passar à ação». A linguagem está fortemente impregnada de metáforas mecânicas. A pessoa surge, por vezes, como um sistema a otimizar ou a colocar novamente em movimento.
Esta orientação tem uma explicação histórica. O coaching moderno estruturou-se entre os anos 1980 e 2000 sob a influência conjunta da gestão por objetivos, do desenvolvimento pessoal e da psicologia positiva. Os trabalhos sobre o modelo GROW ou os realizados no domínio do desempenho desportivo contribuíram amplamente para difundir uma imagem do coach como catalisador do desempenho.
A linguagem desportiva é omnipresente: «objetivo», «desafio», «treino», «progresso», «potencial». Nas organizações, esta linguagem acompanha a evolução do trabalho contemporâneo no sentido de uma maior autonomia e autorregulação. A sociologia (Boltanski) demonstrou como o novo espírito do capitalismo valoriza agora a iniciativa individual, a adaptabilidade e a capacidade de se transformar continuamente.
O sucesso de conceitos como «sair da zona de conforto» é revelador. Popularizada nos meios da formação comportamental e da liderança, a expressão pressupõe que a verdadeira aprendizagem nasce da exposição à incerteza. Algumas investigações na área da psicologia da aprendizagem confirmam que um nível moderado de desestabilização favorece a atenção e a memorização.
No entanto, vários autores salientam também os possíveis desvio de uma cultura permanente de superação de si próprio. Trabalhos recentes sobre os riscos psicossociais mostram que a exigência contínua de transformação pode provocar fadiga, desmotivação ou perda de sentido.
A expressão «alinhamento» constitui outro exemplo interessante. Muito utilizada no coaching, designa a coerência entre valores, emoções, comportamentos e decisões. Por trás da sua aparente suavidade, esta noção transmite também uma exigência normativa: ser coerente, transparente, autêntico.
No entanto, as investigações sobre o trabalho na prática mostram que os indivíduos lidam frequentemente com múltiplas contradições, tensões de papéis ou exigências paradoxais. A busca pelo alinhamento absoluto pode, assim, tornar-se fonte de culpa.
As metáforas moldam as práticas de acompanhamento
As ciências cognitivas demonstraram que as metáforas não servem apenas para ilustrar um pensamento: elas estruturam a própria forma de compreender uma situação. Os trabalhos de Lakoff e Johnson (1980)evidenciaramo papel central das metáforas na organização da experiência humana. Dizer que uma pessoa está «bloqueada», «travada» ou «desalinhada» já orienta implicitamente as soluções consideradas.
No coaching, as metáforas dominantes produzem efeitos concretos nas atitudes profissionais. Um coach que encara o acompanhamento como «colocação em movimento» procurará naturalmente estimular a ação, por vezes de forma rápida. Aquele que concebe a mudança como uma «travessia» dará maior ênfase à resistência ou ao confronto. Por outro lado, uma abordagem baseada na escuta ou na presença mobilizará outros gestos relacionais.
Os meios da facilitação coletiva oferecem hoje um terreno particularmente interessante de evolução lexical. Vêem-se surgir expressões como «manter o espaço», «acolher o que surge», «apoiar a emergência», «ouvir o sistema» ou «dar espaço». Estas formulações são influenciadas pelas abordagens sistémicas, pela fenomenologia, pelas práticas contemplativas ou pelas teorias do diálogo.
A transformação coletiva pressupõe menos convencer e mais desenvolver uma qualidade de presença que permita perceber «o que procura emergir». O vocabulário muda, então, profundamente. Já não se fala apenas de objetivos ou de desempenho, mas de escuta generativa, de presença, de ressonância ou de atenção ao que está vivo.
As práticas narrativas desenvolvidas, nomeadamente por White, também deslocam o centro de gravidade da linguagem. Já não se trata de «impactar» uma pessoa com uma pergunta poderosa, mas de abrir um espaço onde outra história se torne habitável. Algumas perguntas são qualificadas como «delicadas» ou «acolhedoras», porque permitem explorar, sem violência, zonas frágeis da experiência.
Nas abordagens corporais e somáticas, o léxico evolui ainda de outra forma. Os profissionais falam agora de «sentir um limiar», «ouvir os microsinais», «habitar uma situação» ou «seguir uma sensação». A mudança já não é concebida como uma correção, mas sim como uma modulação da relação com o meio. Os trabalhos decorrentes da cognição incorporada, nomeadamente De Varela et al. (1993), contribuíram para legitimar esta atenção ao corpo vivido como fonte de conhecimento.
Rumo a uma ecologia da linguagem relacional
A evolução do vocabulário do coaching não é um mero fenómeno de moda. Reflete uma transformação mais profunda das expectativas contemporâneas em relação ao acompanhamento humano.
Num mundo saturado de exigências de desempenho, alguns profissionais procuram agora formas de relação menos extrativistas e menos prescritivas. Esta mudança manifesta-se claramente nas práticas de diálogo coletivo. Enquanto algumas abordagens antigas valorizavam o debate contraditório ou o confronto de ideias, os métodos inspirados no diálogo de Bohm privilegiam a suspensão do julgamento, a escuta mútua e a exploração coletiva do sentido. O vocabulário torna-se mais sereno: menos belicoso, menos mecânico e, por vezes, mais poético.
Esta mudança não está isenta de ambiguidade. As novas expressões «ressonância», «presença», «vibração», «energia» também podem tornar-se fórmulas vazias quando não estão ligadas a práticas rigorosas. Existe o risco de substituir um jargão de gestão por um jargão pseudo-espiritual.
No entanto, algo de importante está em jogo nesta transição lexical. As palavras utilizadas para acompanhar as pessoas nunca são neutras. Elas traçam implicitamente uma antropologia. Falar em termos de «golpe de martelo» pressupõe que é necessário quebrar uma resistência. Falar de «palavra acolhedora» pressupõe, pelo contrário, que um ser humano se transforma mais quando encontra um espaço suficientemente seguro para explorar a sua experiência.
As investigações sobre segurança psicológica conduzidas por Edmonson (2019) mostram precisamente que a aprendizagem coletiva depende menos da pressão exercida sobre os indivíduos do que da qualidade relacional do ambiente. Os grupos aprendem mais quando podem expressar dúvidas, desacordos ou fragilidades sem medo excessivo de serem julgados.
A linguagem torna-se, então, uma componente do próprio ambiente de aprendizagem. Certas formulações impedem a exploração. Outras abrem possibilidades. Uma pergunta pode funcionar como um martelo. Pode também funcionar como uma clareira.
Referências bibliográficas
Boltanski, L., & Chiapello, È. (2011). O novo espírito do capitalismo. Gallimard.
Edmondson, A. C. (2019). The fearless organization. Wiley.
Gallwey, W. T. (1974). O Jogo Interior do Ténis. Random House.
Lakoff, G., & Johnson, M. (1980). Metaphors we live by. University of Chicago Press.
Scharmer, O. (2009). Teoria U: Liderar a partir do futuro à medida que este surge. Berrett-Koehler.
Varela, F. J., Thompson, E., & Rosch, E. (1993). A inscrição corporal da mente. Seuil.
White, M. (2007). Mapas da prática narrativa. Norton.
Whitmore, J. (2017). Coaching for performance (5.ª ed.). Nicholas Brealey.
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