De forma habitual nas nossas sociedades, quando se fala em avaliação do ensino, visualiza-se o modelo tradicional de avaliação hierárquica pelo professor e, por extensão, pelo aluno, com base no documento de correção desse mesmo professor.
Existem outras formas de avaliar um aluno, denominadas «grupais». A primeira é a correção entre pares, que se encontra nos MOOCs, com como vertente tecnológica os comentários entre pares e, mais além, a criação da avaliação pelo grupo e a sua implementação.
Os critérios do conhecimento
O professor é, na origem, um transmissor de conhecimentos, cuja qualidade de aprendizagem dos seus alunos avalia através da realização de exames, seguidos de correções. Supervisiona o processo de ensino do início ao fim, de acordo com um conceito hierárquico tradicional. Define o conteúdo da disciplina, a forma de transmitir o conhecimento e a forma de avaliar esse conhecimento. Neste cenário, o aluno depende totalmente dele. Quer o exame seja um questionário, uma redação… a posição do professor é a de um avaliador e a do aluno é a de um avaliado.
Encontramos também uma variante a este método de avaliação na autoavaliação. Já não é o professor que corrige o trabalho, mas sim o aluno, graças aos documentos de correção fornecidos pelo professor. Esta é a primeira mudança de papéis que se verifica. O aluno deixa de ser passivo no ato de correção, passando a ser ativo. Trata-se de um passo em direção à autonomia, mas também em direção a uma relação de confiança consigo mesmo e com o professor, que passa então a ser um orientador. O aluno assume um papel ativo. Lê as instruções de avaliação de acordo com as explicações do seu professor.
Não poder ser sempre o juiz
Hoje em dia, a sociedade está a mudar, as relações entre empregadores e empregados estão a mudar, as novas gerações X e Y já não funcionam de acordo com os antigos preceitos hierárquicos. Assim, vemos os conceitos de grupo a ganharem terreno, seja porque se detetam novas necessidades, seja porque a tecnologia traz soluções inéditas.
Os cursos online em massa das universidades são grandes utilizadores destas formas de trabalhar. Como corrigir 3 000 ou 20 000 trabalhos de estudantes de uma só vez? Como avaliar um trabalho colaborativo sem o penalizar? Como transmitir conhecimentos de um grupo para outro, tendo em conta a diversidade de origens, percursos dos estudantes e das suas culturas?
Para corrigir milhares de trabalhos ao mesmo tempo, a correção entre pares é, atualmente, a solução mais adequada. A famosa confiança no aluno é substituída por uma avaliação de teste que permite calibrar a pertinência e o rigor da sua correção.
As coavaliações de uma mesma prova permitem uniformizar os resultados das correções. Os coavaliadores devem ter uma metacognição do documento de avaliação infinitamente mais forte do que na autoavaliação, uma vez que esta é corroborada pelo número de avaliadores. A sua imagem e a sua responsabilidade social estão em jogo; têm de questionar-se sobre o sentido da sua correção para que esta seja pertinente. O professor supervisiona-os e delegou-lhes a sua tarefa, estabelecendo limites de segurança.
«Sobre a avaliação entre pares... Não é, de forma alguma, uma novidade, mas está no cerne do percurso avançado de um MOOC; os desafios são consideráveis, pois permite conciliar
1. Riqueza pedagógica: para além dos questionários
2. Escalabilidade: corrigir 1 000 trabalhos
3. Mudança de paradigma: de alunos ativos a competências mais desenvolvidas» A avaliação entre pares num MOOC. Que fiabilidade e que legitimidade?
Por Rémi Bachelet, École Centrale de Lille, fundador do MOOC GdP
«A metacognição visa um dos problemas permanentes do ensino: o da transferência ou generalização do que foi aprendido (…) É o meio mais importante através do qual um indivíduo se torna capaz de modificar e adaptar a sua atividade cognitiva a tarefas em contextos diferentes. (…). Torna o aluno num teórico implícito ou explícito da sua cognição — ele sabe o que sabe e como o sabe, o que lhe permite transferir a sua competência para diferentes tarefas»
Gaveleck e Raphael (1985)
O último caso é o dos trabalhos coletivos sobre temas variados. O que é relevante é o envolvimento pessoal nas trocas entre estudantes sobre os projetos uns dos outros. Fala-se, então, de comentários entre pares. Estes são feitos de acordo com metodologias de crítica construtiva. O objetivo é otimizar os documentos dos outros grupos.
É também um método totalmente em sintonia com as ferramentas colaborativas na Internet. O aluno torna-se, assim, o próprio responsável pelas suas críticas. Sugere correções, que podem ser aceites ou rejeitadas, com o objetivo de ajudar os outros a avançar nos seus projetos. O professor está presente apenas como acompanhante e garante da forma, e já não do conteúdo.
A correção e o conteúdo do curso também podem ser criados pelo grupo de alunos. A pesquisa, a estruturação do conteúdo e a forma de ensinar serão escolhidas pelo grupo, que assume o papel do professor. Neste caso, o professor é apenas um orientador que garantirá a qualidade do curso. E o grupo assume todo o processo de ensino até à avaliação final. Trata-se de uma aprendizagem entre pares. É uma inversão completa dos papéis hierárquicos tradicionais. O professor ou outros grupos tornam-se os ouvintes e os alunos dos explicadores.
Um continuum de atitudes
É de salientar, nestes cinco cenários, grandes diferenças nos papéis dos alunos e do seu professor. De um papel hierárquico, o professor passa a ser um guia, um supervisor, um leitor e, por fim, um acompanhante.
O aluno, por sua vez, ganha competências. De passivo e avaliado, torna-se ativo e autónomo, depois coavaliador, para se tornar ele próprio professor e, por fim, cocriador de conteúdos.
A transição do sistema hierárquico para diversas formas de colaboração com os pares é sintomática de uma mudança social palpável e é, sem dúvida, apenas o início de novas formas de aprender e, consequentemente, de avaliar que estão por vir.
As escolas, os departamentos de RH e os gestores têm todo o interesse em permanecer atentos a estas novas formas de agir, pois elas irão moldar o mundo e as relações humanas do futuro.
Ilustração: Geralt - Pixabay
Fontes:
Mudanças de pontos de vista, de papéis e de atitudes nos novos dispositivos de ensino, por Alain CRINDAL (UMR STEF ENS Cachan INRP) e Bernard ANDRIEU (IUFM de Lorraine)
A metacognição: da sua definição pela psicologia à sua implementação na escola, por Anne-Marie Doly
A avaliação entre pares num MOOC. Que fiabilidade e que legitimidade? Por Rémi Bachelet, École Centrale de Lille
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