Assumir riscos comedidos permite-nos crescer, ganhar auto-confiança e avançar na vida. É vital ultrapassar os nossos medos para que possamos aproveitar as oportunidades que surgem no nosso caminho e tornarmo-nos a melhor versão de nós próprios. Vale bem a pena o esforço!
O que é que está por detrás da expressão "correr riscos"?
A expressão "correr riscos" pode ser dividida em diferentes tipos de risco, desde o risco vital ao risco percepcionado, como a "síndrome do impostor".
Tipos de risco
Para avaliar os tipos de risco que cada um de nós está disposto a correr, é necessário colocar cada situação e experiência em perspetiva.
Podemos estabelecer um paralelo entre os diferentes tipos de risco e a pirâmide de necessidades de Maslow:
- Riscos vitais, por necessidade (alimentação, abrigo): quando o acesso às necessidades fisiológicas básicas está ameaçado, os riscos tornam-se inevitáveis para as satisfazer.
- Riscos de segurança, por obrigação: em contextos de insegurança, é necessário correr riscos para se proteger a si próprio e aos seus entes queridos.
- Riscos pessoais e criativos, por vocação: algumas pessoas estão dispostas a sacrificar a estabilidade e a segurança por paixão a um ideal ou a uma causa que as ultrapassa. Estes riscos estão ligados à necessidade de realização no topo da pirâmide de Maslow.
Correr riscos significa, por vezes, arriscar a vida, o que, felizmente, não é frequente nas nossas sociedades.
Geralmente, pensamos no risco como sair da nossa zona de conforto, enfrentar o desconhecido e a incerteza. Mas isso pode dar origem a medos interiores: medo do fracasso, medo do olhar dos outros, medo da instabilidade, etc.
É preciso ter coragem para correr riscos?
Existe uma relação complexa entre a coragem e a assunção de riscos, que depende muito do contexto. Mas, em todos os casos, a coragem e a lucidez são bens preciosos face à incerteza.
Nalgumas situações, os riscos são impostos pela necessidade ou por constrangimentos externos. A coragem consiste, então, em aceitar a realidade dos riscos e enfrentá-los com lucidez, em vez de os aceitar passivamente. Nestes casos, a coragem permite-nos assumir os riscos inevitáveis da melhor forma possível, mantendo a nossa serenidade e determinação. Mesmo os riscos que se correm podem ser assumidos com coragem.
Na nossa sociedade, o risco é diferente. Exige uma certa dose de coragem, mas não coloca a vida do indivíduo em perigo. Neste caso, correr riscos implica geralmente sair da zona de conforto, enfrentar o desconhecido e a incerteza.
Ultrapassar estes medos, seguir em frente apesar dos obstáculos e dos perigos potenciais, requer inegavelmente uma forma de coragem. A coragem dá-nos a força para agir com determinação, apesar das nossas dúvidas e ansiedades.
Porque é que a sociedade atual se tornou avessa ao risco?
O facto de vivermos numa segurança sem precedentes e de termos a maior parte das nossas necessidades satisfeitas criou uma espécie de desejo de uma sociedade sem riscos. Assim que um risco, real ou não, é identificado, torna-se objeto de artigos que provocam ansiedade e que são retomados por muitos líderes que respondem ao desejo de conter esse risco.
Toda uma série de factores explica esta evolução:
- Um sentimento de insegurança acrescido, amplificado pela mediatização dos perigos. O resultado é uma sociedade mais receosa.
- A procura de conforto e de estabilidade material, que nos torna mais avessos ao questionamento. O conformismo é tranquilizador.
- Uma forte pressão social e parental para ter sucesso e se conformar, o que desencoraja a autonomia arriscada.
- Uma cultura dominante de aversão ao risco e de controlo, incluindo em instituições como as escolas. Este facto tem um efeito de arrastamento nas atitudes.
- O peso dos regulamentos e das normas jurídicas, que controlam rigorosamente as iniciativas empresariais ou sociais.
- A falta de perspetiva histórica: as gerações mais recentes não viveram as grandes convulsões que exigem audácia e adaptação.
O maior risco para as nossas sociedades reside, sem dúvida, nesta apreensão do risco.
Risco ou estagnação?
Mesmo que o risco vital tenha praticamente desaparecido, uma sociedade cujos membros tivessem todos uma aversão extrema ao risco seria uma sociedade estática, incapaz de progredir.
Todo o progresso exige a exploração de novas possibilidades. Isto implica inevitavelmente riscos:
- o risco de fracasso
- de perder tempo ou recursos,
- de desagradar a certas pessoas.
Sem uma aceitação do risco e da incerteza, não é possível qualquer inovação significativa.
Uma sociedade paralisada pelo medo do risco seria privada das ideias visionárias, do espírito empreendedor e da criatividade necessários para desenvolver e adaptar-se aos desafios. Ficaria atolada na rotina e na repetição dos padrões existentes.
Uma aversão generalizada ao risco conduziria inevitavelmente uma sociedade à estagnação, ou mesmo à regressão.
Inovação = assunção de riscos?
Inovar significa correr certos riscos, mas com algumas nuances. Qualquer inovação significativa implica a exploração de novas abordagens, cujos resultados não podem ser previstos com certeza. Existe, portanto, um risco de fracasso, de crítica ou de rejeição por parte daqueles que preferem a estabilidade.
A inovação exige que se saia da zona de conforto e que se aceite um certo grau de incerteza. Mas o risco deve ser calculado e os pressupostos devem ser solidamente apoiados pela razão. Assim, a assunção de riscos não é um fim em si mesmo, mas um meio possível para uma inovação bem pensada. O risco acompanha frequentemente a inovação, mas não a define por si só.
Como distinguir a assunção de riscos do aventureirismo?
A principal nuance reside no equilíbrio entre audácia e prudência, visão e pragmatismo. A coragem esclarecida arrisca-se por uma causa maior do que ela própria. O aventureirismo é mais uma busca individual de emoções.
Eis algumas formas de distinguir a assunção de riscos ponderada do aventureirismo imprudente:
- A assunção responsável de riscos baseia-se numa análise racional dos perigos e das oportunidades. A assunção de riscos imprudente baseia-se numa análise racional dos perigos e oportunidades envolvidos.
- O risco calculado baseia-se em objectivos, recursos e competências definidos. O aventureirismo é frequentemente mais improvisado e aproximado.
- Assumir riscos de forma construtiva significa também ouvir conselhos cautelosos. O aventureirismo tende a ignorar todas as objecções.
- Assumir riscos eticamente significa pesar as consequências para os outros. O aventureirismo é mais egocêntrico.
- Correr riscos exige determinação, mas também flexibilidade para se adaptar. O aventureirismo é muitas vezes sinónimo de teimosia.
- Assumir a quantidade certa de riscos leva ao progresso.
Um aventureirismo excessivo conduz ao excesso e ao fracasso.
Destruição criativa
Schumpeter acreditava que o progresso económico se baseia num processo dinâmico em que novas inovações suplantam e "destroem" modelos e empresas existentes. É o que ele chamou de "destruição criativa".
Para permitir este processo dinâmico de inovação, os empresários devem assumir riscos, investindo em novas ideias ou tecnologias cujo sucesso não é garantido. Se não se atrevessem, não haveria "destruição criativa".
A zona de conforto, porquê e como sair dela
A"zona de conforto" refere-se a um estado psicológico em que uma pessoa trabalha em condições familiares e previsíveis. Isto cria uma sensação de segurança e de controlo sobre a situação.
A zona de conforto pode ser vista como uma forma de evitar o risco e o desconhecido. Permanecer nesta zona tranquilizadora minimiza a ansiedade. Mas isso leva à estagnação e impede o crescimento pessoal ou social.
A escola, um ator essencial
Durante os anos de escolaridade, frases como :
- És um inútil, nunca terás sucesso
- Não percebes nada
- Não serves para nada!
- etc.
só podem inibir os jovens, que podem ficar marcados por elas. A missão da escola deve ser a de dar confiança aos alunos e evitar comentários definitivos e invalidantes.
Ensinar através de experiências positivas
A falta de auto-confiança pode dar origem a medos desnecessários. Desde a mais tenra idade, a auto-confiança deve ser integrada no processo de aprendizagem, a fim de encorajar as pessoas a tomar a iniciativa e de lhes dar o gosto de aprender através do prazer do sucesso. Trata-se de uma abordagem humanista.
A ideia da pedagogia da experiência positiva é incentivar a aprendizagem através de experiências gratificantes.
Em termos práticos, isto significa que os professores devem :
- Destacar os pontos fortes e os progressos de cada aluno. Incentivar e felicitar, mesmo as pequenas vitórias.
- Dar feedback positivo sobre o que foi conseguido antes de apontar os erros. Criticar para ajudar a progredir.
- Valorizar o esforço e a abordagem do aluno, mesmo que o resultado não seja perfeito.
- Criar actividades que permitam aos alunos experimentar o sucesso, e não apenas avaliações sumativas.
- Personalizar a aprendizagem, tendo em conta os interesses e os pontos fortes de cada aluno.
- Cultivar um ambiente de sala de aula atencioso, onde os alunos ousem sem medo de serem menosprezados.
Resumo
As sociedades que encorajam a assunção de riscos, de uma forma ponderada e consciente, permitem a inovação e o desenvolvimento pessoal e coletivo. A "zona de conforto", embora tranquilizadora, é uma armadilha que conduz à estagnação; sair dela é muitas vezes visto como uma aventura libertadora. A educação desempenha um papel crucial no desenvolvimento da auto-confiança e na preparação dos indivíduos para agirem com coragem e sabedoria.
Ilustração: HayDmitry - DepositPhotos
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