Artigos

Publicado em 15 de outubro de 2025 Atualizado em 15 de outubro de 2025

O que nos põe em movimento

Agitar o corpo e a alma

fonte unsplash

Fundamentos neurobiológicos e modelação computacional

Os interesses e as motivações desenvolvem-se principalmente através de mecanismos neurobiológicos que fornecem o substrato para a ativação e a ação voluntárias.

A estrutura da neurociência comportamental propõe que o comportamento motivado resulta da integração de sinais internos (estados fisiológicos, necessidades, perdas/ganhos esperados) e sinais externos (estímulos salientes) em circuitos neurais (moléculas, neurotransmissores, hormonas).(ResearchGate)

Dopamina, redes de controlo da saliência e motivação intrínseca

O interesse intrínseco - a tendência espontânea para explorar, para estimular as nossas capacidades - é apoiado por sistemas dopaminérgicos antigos. Estudos recentes mostram que os comportamentos exploratórios e de mestria estão correlacionados com as actividades das redes cerebrais de deteção de saliência, de controlo da atenção e de cognição autorreferencial(Frontiers). Por outras palavras, o cérebro "investe" naquilo que parece saliente (diferente do contexto), interessante ou ensinável - mesmo sem recompensa externa explícita.

Um modelo mais refinado, o modelo RGDM (Recurrent Gating Desire-Motivation) proposto por Liu, Zhao e Chen (2020), interpreta a transição de múltiplos desejos para uma motivação unificada como uma dinâmica de rede neural recorrente, com ajuste de intensidade e seleção da direção da ação.(arXiv)

Modelos alternativos: inferência ativa e motivação intrínseca

Teorias emergentes como a Inferência Ativa[uma operação lógica através da qual uma proposição é aceite em virtude da sua ligação com outras proposições já tidas como verdadeiras] sugerem que o desejo/motivação não deve ser reduzido a um simples sinal de recompensa, mas deve fazer parte de um ciclo de perceção-ação no qual o agente antecipa estados futuros do mundo de forma a minimizar a "surpresa" ou incerteza.

Neste quadro, os motivos intrínsecos (curiosidade, diversidade, aprendizagem) emergem de um objetivo interno de manter a certeza ou reduzir a ambiguidade, sem necessidade de impor um sinal de recompensa externo.(arXiv)

Estas abordagens mostram que os desejos e as motivações não são entidades isoladas, mas sim processos dinâmicos e emergentes em que o corpo, o cérebro e a representação antecipatória do mundo constroem em conjunto uma direção para a ação.

Estruturas psíquicas, inconsciente e construção simbólica

Para além dos constrangimentos biológicos, os interesses e desejos humanos são moldados pela história psíquica, pelas dinâmicas inconscientes, pelo simbolismo cultural e pelas matrizes simbólicas individuais.

Necessidade, demanda, desejo: de Lacan à psicanálise contemporânea

Na psicanálise lacaniana, a distinção entre necessidade, demanda e desejo é central. A necessidade está ligada à ordem biológica; a procura, mediada pela linguagem social, apela ao reconhecimento; o desejo, por seu lado, é o que está "para além" da procura - uma falta irredutível, uma procura de algo que nunca pode ser totalmente formulado. O desejo está, assim, em constante movimento, nunca totalmente satisfeito, o que faz dele a força motriz da subjetividade.(Wikipédia)

Esta visão psicológica sugere que as atracções humanas não são apenas motivadas por aquilo que "queremos", mas por aquilo que nos falta, aquilo que procuramos nomear sem o sabermos sempre.

O papel da imaginação social e do habitus

Os desejos humanos também fazem parte de contextos culturais e sociais. Pierre Bourdieu propôs o conceito de habitus para descrever a forma como os nossos gostos, inclinações e aspirações são moldados pela nossa trajetória social. Estas disposições pré-conscientes influenciam aquilo que nos atrai: as artes, os desportos, os compromissos políticos ou espirituais.

No domínio da sociologia contemporânea do desejo, as investigações sobre o desejo de novidade sublinham que o capitalismo moderno cria uma dinâmica de estimulação constante: a renovação, a novidade e a moda são vistas como valores atractivos. Jeanne Guien (2025) analisa a forma como o desejo de novidade é incorporado nas indústrias culturais e de consumo, legitimando a procura do inédito - que também orienta as nossas atracções e desejos.(Le Monde.fr)

Do mesmo modo, nos mundos da arte, o desejo assume uma dimensão plural e contraditória: pode ser uma procura de reconhecimento, uma afirmação de identidade, uma transgressão ou uma rutura - e isso vê-se nas obras, nas mediações, nos mercados e nas práticas simbólicas.(Calenda)

Movimentos espirituais, buscas existenciais e atractores transcendentes

Finalmente, alguns desejos não encontram o seu destino em objectos concretos, mas num horizonte existencial: o sentido, a transcendência, a comunhão, a beleza. As tradições filosóficas e espirituais (mística, existencialismo, fenomenologia) apontam para movimentos de atração que vão para além do que é útil, rentável ou socialmente valorizado. Estas aspirações desempenham um papel estruturante na vida interior do indivíduo, mesmo que muitas vezes permaneçam no fundo do discurso consciente.

Sinergias entre níveis e trajectórias de cristalização

Os interesses, as motivações, os desejos, os movimentos e as inspirações não têm uma origem única: surgem na interface de três níveis interligados - o biológico, o psíquico e o sociocultural - e cristalizam-se em trajectórias de vida individuais.

Interações dinâmicas e trajectórias individuais

Desde o nascimento, um indivíduo é portador de certas potencialidades (temperamento, sensibilidade, constituição biológica). Mas estas potencialidades permanecem virtuais enquanto não forem objeto de uma experiência, de uma cultura, de uma relação com os outros. O desejo - entendido aqui como uma dinâmica inacabada - ativa partes do eu, orienta a curiosidade e conduz à pesquisa, ao empenho e à experimentação.

Em cada bifurcação do caminho (encontro, leitura, choque estético, crise pessoal), uma orientação toma forma. O desejo não pode ser reduzido a um plano fixo: toma forma em acções concretas, em feedback, em autoanálise.

Crise, conversão e metamorfose do desejo

Por vezes, as experiências críticas (rutura, luto, isolamento, surpresa súbita) provocam aquilo a que podemos chamar rupturas no desejo: desinteresse por um projeto antigo, reconfiguração do que consideramos digno. Esta mudança pode abrir a porta a novos interesses, novas aspirações e a uma releitura do eu.

Neste processo, o desejo actua como aquilo que "puxa" o indivíduo para fora das suas rotinas, em direção ao desconhecido - mas sempre apoiando-se nos traços da sua história, nas suas ligações anteriores, nos seus recursos simbólicos.

Para uma ecologia do desejo humano

Compreender a origem do desejo significa reconhecer que ele é simultaneamente frágil e poderoso, estruturado e instável. É por isso que é útil pensar numa ecologia do desejo: um ambiente que alimenta as condições (psicológicas, sociais, biológicas) onde as curiosidades podem florescer em vez de se extinguirem.

Isto significa :

  • favorecer uma diversidade de estímulos sem saturar a atenção,
  • favorecer os intervalos de reflexão, as pausas e as retiradas, para que certas aspirações latentes possam emergir,
  • cultivar ambientes simbólicos ricos (trocas, artes, histórias) onde os desejos podem encontrar-se, misturar-se e transformar-se,
  • reconhecer a plasticidade humana: a possibilidade de os desejos evoluírem, mudarem e sofrerem mutações ao longo do tempo.

Motores da alma e do corpo

Os interesses, as motivações, os desejos, os movimentos, as inspirações e as atracções humanas não podem ser reduzidos a uma única causa. Estão enraizados num complexo entrelaçamento de fisiologia, cérebro, inconsciente, imaginação social e trajetória de vida.

Os modelos contemporâneos derivados da neurociência computacional (RGDM, inferência ativa) convidam-nos a repensar a motivação não como um simples sinal, mas como uma dinâmica emergente. A psicologia psicanalítica recorda-nos que o desejo é estruturado pela falta e pela linguagem. A sociologia e a filosofia mostram que as nossas aspirações são moldadas por culturas, tecnologias e narrativas colectivas.

Pensar o desejo humano significa reconhecer a fragilidade e a potência dos motores invisíveis da alma e do corpo - nos quais se inventa a nossa relação com o mundo e connosco próprios.

Referências

Neurociência e modelação computacional

* Berridge, K. C., & Kringelbach, M. L. (2015). Pleasure systems in the brain (Sistemas de prazer no cérebro). Neuron, 86(3), 646-664. https://doi. org/10.1016/j.neuron.2015.02.018

* Salamone, J. D., Yohn, S. E., López-Cruz, L., San Miguel, N., & Correa, M. (2016). Aspectos ativacionais e relacionados ao esforço da motivação: mecanismos neurais e implicações para a psicopatologia. Brain, 139(5), 1325-1347. https://doi. org/10.1093/brain/aww050

* Liu, Z., Zhao, W., & Chen, W. (2020). RGDM: Um modelo de gating recorrente para a dinâmica de desejo-motivação. arXiv preprint arXiv: 2011.05595. https://arxiv. org/abs/2011.05595

* Friston, K., Parr, T., & de Vries, B. (2017). O cérebro gráfico: propagação de crenças e inferência ativa. Network Neuroscience, 1(4), 381-414. https://doi. org/10.1162/NETN_a_00018

Psicologia e psicanálise

* Lacan, J. (1966/2001). Écrits. Paris: Seuil (referência clássica, distinção entre necessidade/demanda/desejo).

* Leader, D. (2022). Why Can't We Sleep? Understanding Our Sleeping and Waking Lives. Londres: Penguin (capítulos recentes sobre o desejo inconsciente e a falta existencial).

* Laplanche, J. (2015). Après Freud. Paris: PUF. (atualização contemporânea do conceito de desejo em psicanálise)

Sociologia e filosofia

* Bourdieu, P. (1979/2013). La distinction. Critique sociale du jugement. Paris: Minuit.

* Rosa, H. (2019). Ressonância. Uma sociologia da relação com o mundo. Paris : La Découverte.

* Guien, J. (2025). "Les discours de nouveauté légitiment la prédation". Le Monde, 2 de junho de 2025.

* Calenda (2024). Convite à apresentação de trabalhos - Désirs d'art. https://calenda. org/1222722



Veja mais artigos deste autor

Dossiês

  • Em paralelo

Notícias de Thot Cursus RSS
Leitor de RSS ? :Feedly, NewsBlur

Superprof : a plataforma para encontrar os melhores professores particulares no Brasil e em Portugal



Receba nosso dossiê da semana por e-mail

Mantenha-se informado sobre o aprendizado digital em todas as suas formas, todos os dias. Idéias e recursos interessantes. Aproveite, é grátis!