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Publicado em 11 de outubro de 2022 Atualizado em 11 de outubro de 2022

O palhaço como alternativa à I [Tese] séria

A pedagogia do prazer como arma de instrução de massas

Palhaço de investigação com bata vermelha e nariz de pé no tecto contra um fundo amarelo

"O riso é uma arma de construção em massa".

Jango Edwards-Clown

O guião educativo é a formalização escrita à mão do curso de intervenção ou de formação. Estas notas incluem o progresso detalhado de cada uma das sequências de formação e formam um guia para os vários participantes, bem como uma garantia de qualidade, profissionalismo e reprodutibilidade.

O guião educativo também permite a criação de jogos sérios. Estes jogos sérios são objectos educativos que utilizam as capacidades e o apetite das pessoas para se envolverem em jogos com o objectivo de aprender.

A combinação dos termos "jogo " e "sério" para descrever estas ferramentas de eduentretenimento sugere que o não sério não é educativo. Tal como é improvável imaginar um jogo sério para treinar um palhaço, é improvável treinar pessoas sérias com um jogo de palhaços. De facto, como podemos prever uma educação baseada em risos, piadas e diversão?

Em francês, "Palhaço" pode ser usado para desacreditar o estatuto de uma pessoa ou diminuí-lo. Mas será assim tão simples ser um palhaço? Será suficiente ser chamado palhaço para ser um?

Algumas escolas de circo não oferecem formação para o papel de palhaço, julgando que a palhaçada é algo inato, uma vocação, ou mesmo, como alguns circos familiares têm sugerido, uma coisa genética. Se for este o caso, as pessoas ambiciosas que desejem formar para a profissão de nariz vermelho ficarão a perder.

Como é que alguém se torna um palhaço? Existe uma pedagogia para a palhaçada? É grave? Está limitado à aprendizagem do ofício de palhaço? Mas o que é exactamente um palhaço? É isto que o palhaço Rafaël Resende Marques da Silva nos propõe na sua tese "Desenvolvimento de uma pedagogia da palhaçada: uma viagem entre o Brasil e a Europa".

Porquê ler esta tese

Rafaël Resende Marques da Silva propõe uma tese de palhaço nascida da sua experiência como palhaço, professor e investigador. A caneta, o esforço e a vontade de cativar e fazer sorrir as pessoas são palpáveis.

Como um andarilho de corda bamba, caminhamos ao longo do fio da investigação, salientes sem vertigens, experiências pessoais, abordagens teóricas e experimentais de uma forma elegante e cativante. A cada passo que damos, o conhecimento académico sobre o palhaço materializa-se gradualmente à nossa frente. Por detrás do estereótipo do nariz vermelho, revela-se uma história complexa, um profundo universalismo e sobretudo uma surpreendente pedagogia baseada no riso, na troca e no respeito pelos outros.

Neste manuscrito, o investigador palhaço consegue criar uma pedra que contribui para a melhoria tanto da sua arte como da sua ciência, com a profunda ambição de participar na constituição de uma rede de investigadores sobre o tema do palhaço.

Aquecimento

" O tema deste trabalho tem sido observado durante quinze anos desde as minhas primeiras experiências teatrais e palhaçadas. A experiência empírica foi a base da minha formação como actor e palhaço que naturalmente estimulou a necessidade de compreender a minha prática. A procura de uma prática artística pessoal pode desencadear um projecto de investigação sui generis, devido às particularidades inerentes ao objecto de estudo.

A criação artística tem a sua própria metodologia desenvolvida pelo artista durante os seus momentos criativos. O caótico material de partida é gradualmente transformado em algo concreto e perceptível aos outros, estimulando uma apreciação estética através de emoções, imagens e reflexões. E uma tese pode seguir a mesma lógica, porque uma experiência, uma ideia ou um problema se transforma ao longo dos anos num corpus palpável e num texto capaz de análise e verificação. Assim, este trabalho é fruto de uma dialéctica de interferências entre o mundo artístico e académico numa tentativa de aproximar a arte da academia e talvez transformar a arte através do ensino superior, ou ainda, a abordagem académica das artes performativas através da palhaçada.

O palhaço é o tema principal desta viagem, que começou no Brasil e passou por quatro países europeus (Bélgica, França, Itália e Portugal). Esta experiência deu origem a dois espectáculos A2 e Turning Point: os Burrocratas, vinte workshops de iniciação e criação de actos de palhaços, doze residências artísticas, cinquenta espectáculos em vinte cidades de dois continentes e um público estimado de oito mil pessoas neste processo de investigação entre os anos 2011 e 2018. Uma longa viagem que ainda não terminou e continua com o meu regresso ao Brasil.
[...]
O jogo é uma opção para aceder e descobrir o mundo do palhaço. É um instrumento pedagógico para a formação do ser humano na vida e para o teatro e, portanto, para a palhaçada. Esta prática humana universal pode contribuir para a criação artística. As interacções de actuação com outros campos do conhecimento (pedagogia, psicologia, filosofia) serão utilizadas para ajudar a explorar os conceitos e fundamentos teóricos propostos na tese. A prática e teoria unificada pode assim dar oxigénio a uma arte que é antiga e contemporânea.

A prática está presente em duas frentes: criação de performance e pedagogia do palhaço. O ensino é uma parte importante do trabalho desta investigação porque no nosso grupo, Cia da Bobagem, temos sido as cobaias da metodologia utilizada. E quando esta prática funciona na empresa, é partilhada num workshop com outras pessoas interessadas. Exercícios, técnicas, jogos, métodos de análise e processos são testados como num laboratório que se pode espalhar a outros mais tarde.

Sem nariz vermelho

Rafaël Resende Marques da Silva desacredita a profissão de palhaço, que algumas correntes artísticas associam ao inato ou ao misticismo, integrando mais do que rituais de iniciação misteriosos.

Através da sua pesquisa, o autor consegue destacar dois estilos pedagógicos associados à profissão de palhaço: a pedagogia do sofrimento e a pedagogia do prazer.

A pedagogia do sofrimento corresponde a um modelo de transmissão vertical de informação, com um professor na posição de Sr. Loyal que julga e avalia os palhaços aprendizes de uma forma muitas vezes obscura e subjectiva. O professor tem o direito de rebaixar, humilhar ou intimidar os alunos. Este método de comportamento tirânico cria ansiedade, sofrimento e bloqueios nos alunos, cuja aprendizagem é reduzida a agradar e satisfazer o seu mestre.

A pedagogia do prazer é uma pedagogia desenvolvida pelo palhaço Jesus Jara, que dispensa a figura de autoridade do Sr. Loyal e se baseia em quatro princípios:

  • "Estou errado, portanto estou", o que encoraja as pessoas a minimizar os seus erros, valorizando-os e renunciando à obrigação de ter sucesso;
  • "A carta entra com humor" em oposição total a um ditado espanhol que diz que não há aprendizagem sem dor, comparável ao famoso inglês "no pain no gain". Toda a aprendizagem deve, portanto, ser um prazer;
  • "Auto-estima" , encorajando os alunos e a sua estima através de observações construtivas e não desmoralizantes;
  • "Avaliação do processo de ensino" para permitir ao professor melhorar a sua própria prática após cada intervenção.

A pedagogia do prazer permite ao professor tornar-se um estimulador do prazer de estar no palco, de aprender, de trocar e de se desenvolver.

Esta pedagogia, com ahorizontalidade das relações humanas e o respeito pelo indivíduo e pela sua singularidade, não visa impor um palhaço a todos os aprendizes, mas sim dar à luz um palhaço singular em cada um deles através da brincadeira.

Descrevendo e analisando numerosos cursos de formação de palhaços, o autor Rafaël Resende Marques da Silva consegue definir uma pedagogia do palhaço cujo eixo central é a pedagogia do prazer, que permite que a arte do palhaço seja aprendida através da leveza sem perder a sua qualidade e princípios. Nesta pedagogia, o ensino de palhaços enriquece o conhecimento e a pedagogia da palhaçada com a sua experiência e individualidade, contribuindo com as suas competências e conhecimentos adquiridos em parceria com os seus alunos e o seu público.

Com nariz vermelho

Rafaël Resende Marques da Silva transcende muitos preconceitos e o cinismo generalizado das nossas sociedades, experimentando e propondo a força unificadora de uma pedagogia baseada no prazer. Transcendendo mesmo o seu próprio tema, ele propõe reconsiderar o conhecimento e a nossa relação com ele, adoptando uma pedagogia do prazer. Este método torna possível a aquisição de competências e conhecimentos, oferecendo livre escolha e autonomia na aprendizagem.

Ao aliviar o fardo do erro, ao propor uma nova forma de transmitir, a pedagogia do prazer coloca o prazer de aprender e ensinar de novo em primeiro plano. Emancipa indivíduos, criando e cultivando um apetite pelo conhecimento e pela autonomia. Ao instilartécnicas de comunicação saudáveis e enriquecedoras através do estímulo de ligações connosco próprios e com os outros, tem o potencial de nos ajudar a gerir e desarmar relações hierárquicas tóxicas através daquilo que é de facto uma forma de sabedoria palhaçada.

E quanto a si? Está pronto para integrar a palhaçada no seu guião de ensino?

Sobre o mesmo assunto, recomendo o artigo de Denis Cristol sobre a aprendizagem da arte da palhaçada.

Desfrute da sua leitura

Este trabalho foi defendido em 11 de Junho de 2018 em Montpellier, como parte do doutoramento da Universidade Paul Valéry Montpellier III e preparado na unidade de investigação Representar, Inventar a Realidade do Romantismo no Século XXI - RIRRA21 - EA 4209 e na escola de doutoramento Línguas, Literaturas, Culturas, Civilizações: ED 58 (Montpellier - França)

Fontes

Rafaël Resende Marques da Silva. Desenvolvimento de uma pedagogia da palhaçada: uma viagem entre o Brasil e a Europa. Arte e história da arte. Université Paul Valéry - Montpellier III, 2018. Francês. ⟨NNT: 2018MON30082⟩. ⟨tel-02165951⟩

Tese: https: //hal.archives-ouvertes.fr/tel-02165951

PDF : https://tel.archives-ouvertes.fr/tel-02165951/document


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