Publicado em 29 de junho de 2026Atualizado em 29 de junho de 2026
Será possível descolonizar a inteligência artificial?
As IA reproduzem preconceitos culturais
A inteligência artificial não é esse modelo de suposta neutralidade. Sendo uma criação sobretudo ocidental, tende a reproduzir preconceitos sexistas, racistas e outros que ainda estão enraizados nas nossas sociedades. Consequentemente, as pessoas provenientes de contextos diversos deparam-se, na maioria das vezes, com um espelho que não lhes reflete de todo a imagem do Médio Oriente, da Ásia ou de África que conhecem ou que os seus pais lhes contaram. Percebem o reflexo distorcido da colonização que se perpetua alguns séculos mais tarde.
Por trás do milagre da aprendizagem automática escondem-se milhares de pequenas mãos bem humanas. Este pessoal, amontoado em escritórios exíguos na África Subsariana, entre outros locais, tem de analisar fotografias e vídeos de todos os tipos para treinar o algoritmo a reconhecer o que é correto e o que não é. Um desenvolvimento da «moral digital» que tem um peso psicológico considerável: muitos trabalhadores têm de ver imagens abomináveis de agressões, cadáveres e outras para treinar os robôs conversacionais a não reproduzirem determinados conteúdos, a recusarem-se a responder a pedidos, etc. Mais de 80 % da força de trabalho por trás deste processo de aprendizagem apresenta sintomas de stress pós-traumático.
Felizmente, alguns decidem pegar nas mesmas armas e usá-las para desconstruir esses pensamentos. Desenvolvem, sem rodeios, IAs que são mais sensíveis às grandes figuras do anticolonialismo, que questionam os preconceitos clássicos, que participam num esforço educativo para que tanto os diretamente afetados como os demais saibam mais sobre as disparidades ainda existentes, quem as denunciou e o que é possível fazer.
Embora o Objectivo 5 da Agenda de 2030, adoptado pelos Estados Membros da ONU em Setembro de 2015, recomende "alcançar a igualdade de género dando poder às mulheres e raparigas" até 2030, estamos ainda longe de o alcançar, como demonstra o Resumo da Igualdade de Género de 2018, elaborado pela equipa do Relatório de Monitorização Global da UNESCO.
As obras clássicas moldaram as nossas sociedades e criaram imagens que continuam a assombrar as nossas memórias colectivas. No entanto, para as gerações mais jovens, estas criações parecem passadas. Haverá alguma forma de ensinar os clássicos sem provocar uma onda de suspiros?