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Publicado em 13 de março de 2024 Atualizado em 14 de março de 2024

As propriedades dos nossos alimentos, um bem negligenciado

Será que a qualidade do que comemos é mais importante do que a atenção que lhe damos?

Legumes

Será a qualidade do que comemos mais importante do que a atenção que lhe prestamos? A perda de valor nutricional dos alimentos é um fenómeno preocupante que afecta a nossa alimentação.
Neste artigo, quantificamos este fenómeno e sugerimos formas de o combater.

Os alimentos perderam o seu valor nutricional

De acordo com a revista Nature, a perda está presente em proporções significativas na maioria dos produtos alimentares:

A fruta e os legumes crus registaram uma diminuição do seu valor nutricional, com reduções variáveis consoante o nutriente e o tipo de produto. Por exemplo, o teor de proteínas diminuiu 6%, enquanto a vitamina B2 registou uma diminuição mais significativa, de 38%.

Entre os nutrientes afectados contam-se

  • O cálcio, que baixou particularmente nos brócolos, nas couves e nas mostardas.
  • O ferro, que diminuiu significativamente nas acelgas, nos pepinos e nas nabiças, bem como em certos produtos hortícolas cultivados na Austrália entre 1980 e 2010 (milho doce, batata de pele vermelha, couve-flor, feijão verde, ervilhas e grão-de-bico), com reduções que vão de 30% a 50%.
  • Os níveis de vitamina C diminuíram consideravelmente nos espargos, couves, mostarda e nabiças.

Os cereais não ficam atrás: um estudo revela que o teor de proteínas do trigo diminuiu 23% entre 1955 e 2016. Além disso, os níveis de manganésio, ferro, zinco e magnésio também diminuíram consideravelmente nos cereais.

Esta diminuição do valor nutricional tem igualmente repercussões para os consumidores de carne, uma vez que os animais de criação se alimentam atualmente de gramíneas e cereais menos nutritivos, o que torna a carne e outros produtos animais menos nutritivos do que anteriormente.

Quantidade em detrimento da qualidade

A perda de valor nutricional da fruta e dos legumes está ligada às práticas agrícolas modernas e ao aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

As práticas agrícolas actuais visam aumentar o rendimento das culturas, fazendo crescer as plantas mais rapidamente e em maior quantidade. O crescimento acelerado não permite que as plantas absorvam os nutrientes do solo ou os sintetizem internamente a um ritmo suficiente. Além disso, o aumento da produção dilui os nutrientes num maior volume de culturas, reduzindo a sua concentração nos frutos e legumes. Como os agricultores são pagos de acordo com o peso das suas colheitas, são incentivados a adotar práticas que prejudicam o teor de nutrientes.

O cultivo intensivo danifica o solo, esgotando os seus recursos e comprometendo a capacidade das plantas de formar parcerias com fungos micorrízicos. Estes fungos actuam como extensões das raízes das plantas, melhorando o seu acesso aos nutrientes do solo e à água. A agricultura intensiva reduz assim a qualidade e a fertilidade do solo, afectando a capacidade das plantas para absorverem os nutrientes necessários.

O aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera é outro fator que contribui para a redução do valor nutricional dos alimentos. Quando culturas como o trigo, o arroz, a cevada e as batatas são expostas a níveis mais elevados de dióxido de carbono, geram mais compostos à base de carbono, o que resulta num teor mais elevado de hidratos de carbono (ou hidratos de carbono). As culturas também absorvem menos água quando os níveis de dióxido de carbono são elevados, o que reduz a sua absorção de micronutrientes do solo. As experiências confirmaram que as concentrações de proteínas, ferro, zinco e várias vitaminas B diminuíram em diferentes tipos de arroz após a exposição a níveis mais elevados de dióxido de carbono.

Como é que posso encontrar alimentos de qualidade?

Uma boa solução é satisfazer as suas próprias necessidades, cultivando uma horta com métodos naturais tradicionais.

Cultivar uma horta utilizando métodos naturais ancestrais, como a permacultura, a compostagem e a gestão integrada de pragas, permite criar um ecossistema equilibrado e produtivo, respeitando o ambiente. Eis algumas etapas e conselhos para começar:

  1. Planear e observar o seu espaço: antes de começar a plantar, observe o seu espaço e pense como deve ser organizado. Identifique as zonas de sol e de sombra, os ventos dominantes e as fontes de água. A permacultura incentiva-o a trabalhar com a natureza e não contra ela.

  2. Criar guildas de plantas: numa guilda de plantas, diferentes espécies de plantas são combinadas para criar interacções benéficas entre elas. Por exemplo, algumas plantas atraem insectos polinizadores, outras repelem as pragas ou melhoram a qualidade do solo.

  3. Utilizar composto: o composto é um fertilizante natural obtido a partir da decomposição de resíduos orgânicos (cascas de frutas e legumes, folhas mortas, aparas de relva, etc.). Enriquece o solo com nutrientes e melhora a sua estrutura. Pode criar uma pilha de composto num canto do seu jardim ou utilizar um compostor.

  4. Cobrir o solo com uma camada de matéria orgânica (palha, folhas mortas, casca de árvore, etc.) para o proteger da erosão, limitar a evaporação da água e reduzir o crescimento das ervas daninhas. Além disso, ao decompor-se, a cobertura vegetal enriquece o solo com nutrientes.

  5. Praticar a rotação das culturas: para evitar o esgotamento do solo e a propagação de doenças, é importante não cultivar todos os anos as mesmas plantas no mesmo sítio. Planear uma rotação ao longo de vários anos, alternando as famílias de legumes.

  6. Privilegiar as variedades antigas e locais: as variedades antigas e locais são geralmente mais resistentes às doenças e mais bem adaptadas ao clima do que as variedades híbridas modernas. Ajudam a preservar a biodiversidade.

  7. Adotar uma gestão integrada das pragas: a gestão integrada das pragas consiste em gerir as pragas e as doenças favorecendo os mecanismos naturais de regulação (predadores, parasitas, etc.) em vez de utilizar produtos químicos. Por exemplo, instalar caixas de pássaros ou hotéis de insectos para favorecer a presença de insectos benéficos no seu jardim.

  8. Poupar água: a permacultura incentiva a utilização de sistemas de irrigação eficientes e que poupam água, como a recolha de águas pluviais, a irrigação gota a gota ou a criação de lagos e bacias.

  9. Incentivar a biodiversidade: uma horta rica em biodiversidade é mais resistente e produtiva. Para o conseguir, plantar uma grande variedade de plantas, criar habitats para a vida selvagem e favorecer as espécies autóctones.

Seguindo estes princípios de permacultura (fonte: https: //www.horticulteur.net/permaculture/) e observando atentamente a sua horta, pode criar um ecossistema harmonioso, produtivo e respeitador do ambiente.

Se não puder cultivar os seus próprios alimentos, opte por produtos biológicos e locais. Os alimentos biológicos e produzidos localmente tendem a ser mais ricos em nutrientes do que os provenientes da agricultura convencional.

O valor educativo de uma horta

Se tem filhos, a gestão de uma horta é também uma fonte de aprendizagem e de reencontro com a natureza.

A horta tem muitos benefícios educativos, tanto para as crianças como para os adultos. Esta atividade não só permite que as crianças adquiram conhecimentos e competências práticas, como também as ajuda a desenvolver uma consciência do ambiente e promove o bem-estar pessoal. Eis apenas alguns dos benefícios educativos da jardinagem:

  • Descobrir o ciclo de vida das plantas.
    Ao cultivar uma horta, aprende-se sobre as diferentes fases do ciclo de vida das plantas, desde a germinação até à colheita. Esta experiência prática permite uma melhor compreensão dos processos biológicos e ecológicos que regem o crescimento das plantas.

  • Aprender técnicas de jardinagem.
    Cultivar uma horta significa dominar várias técnicas de jardinagem, como a sementeira, a transplantação, a poda, a rega, a cobertura morta e a rotação de culturas. Estas competências práticas são úteis para a manutenção de uma horta e podem ser transmitidas aos seus filhos.

  • Sensibilização para o ambiente e a biodiversidade.
    A horta é um ecossistema em miniatura que alberga numerosas espécies vegetais e animais. Ao observar as interacções entre os diferentes elementos deste ecossistema, tomamos consciência da importância da preservação da biodiversidade e do respeito pelo equilíbrio natural.

  • Desenvolver a paciência e a perseverança.
    A jardinagem é uma atividade que exige tempo e paciência. Os resultados não são imediatos e pode ser necessário esperar várias semanas ou meses antes de poder colher os frutos do seu trabalho. Esta experiência ajuda a desenvolver a perseverança.

O que é que podemos fazer em relação ao esgotamento dos nossos alimentos?

O esgotamento dos nutrientes na nossa alimentação pode ser parcialmente compensado pela utilização de plantas medicinais e suplementos alimentares. Aqui ficam algumas dicas para o ajudar a fazer isso mesmo:

Plantas medicinais

Muitas plantas são ricas em nutrientes e podem ajudar a compensar as carências. Algumas delas podem ser tomadas sob a forma de infusões, decocções, tinturas-mãe ou em cápsulas. Entre as plantas mais interessantes encontram-se a urtiga (rica em ferro, cálcio e vitaminas), a spirulina (alga marinha rica em proteínas, ferro e vitaminas) e o ginseng (um tónico adaptogénico).

Suplementos alimentares

Os suplementos alimentares podem fornecer os nutrientes específicos de que o seu organismo necessita. Apresentam-se sob diferentes formas (cápsulas, comprimidos, ampolas, pós, etc.) e contêm diferentes ingredientes (vitaminas, minerais, aminoácidos, extractos de plantas, etc.). É importante escolher suplementos de qualidade, adaptados às suas necessidades, e respeitar as doses recomendadas. O ideal é procurar aconselhamento profissional.

Como podemos melhorar a qualidade da nossa alimentação?

De um ponto de vista geral, para melhorar a qualidade da sua alimentação, é importante concentrar-se na saúde do solo, uma vez que esta tem um efeito direto no teor de nutrientes das culturas. Eis algumas estratégias a adotar:

  1. Agricultura regenerativa: Este método tem como objetivo restaurar a fertilidade do solo utilizando práticas sustentáveis. Melhora a matéria orgânica presente no solo, o seu estado geral de saúde e aumenta os níveis de certas vitaminas, minerais e compostos nas culturas.

  2. Evitar a lavoura: A lavoura intensiva pode levar ao esgotamento dos minerais do solo. Por conseguinte, é preferível limitar esta prática a fim de preservar a qualidade do solo.

  3. Plantar culturas de cobertura: As culturas de cobertura, como o trevo, o azevém ou a ervilhaca, podem proteger o solo da erosão e impedir o crescimento de ervas daninhas.

  4. Rotação de culturas: Mudar regularmente o tipo de cultura cultivada em cada campo pode ajudar a melhorar o teor de nutrientes das culturas subsequentes.

  5. Comer uma variedade de alimentos: Para os consumidores, é importante comer uma variedade de frutas, legumes e cereais integrais de cores diferentes. Isto ajuda a compensar certas perdas de nutrientes e a satisfazer as suas necessidades nutricionais.

A melhoria da qualidade dos alimentos exige práticas agrícolas sustentáveis e uma dieta variada.

Reaprender a cultivar e a consumir alimentos

Perante o esgotamento dos nutrientes na nossa alimentação, temos de adotar estratégias para melhorar a qualidade dos nossos alimentos e preservar a nossa saúde. Cultivar uma horta utilizando métodos naturais ancestrais como a permacultura, a compostagem e a gestão integrada das pragas é uma forma eficaz de criar um ecossistema equilibrado, produtivo e respeitador do ambiente.

A preferência por alimentos biológicos e locais, ricos em nutrientes, contribui para uma alimentação mais saudável e sustentável. A utilização de plantas medicinais e de suplementos alimentares pode ajudar a colmatar as carências de nutrientes.

Vamos repensar a forma como produzimos e consumimos para garantir uma alimentação de qualidade e proteger a nossa saúde e o nosso planeta.


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