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Disposição crítica

A crítica pode colocar-nos numa posição embaraçosa, pelo que muitas pessoas preferem abster-se da crítica direta. Mas qual é o mecanismo que nos leva a restringir a expressão da nossa própria opinião? É claro que, por vezes, estamos errados, mas essa não é uma razão suficientemente boa para fazer disso um princípio.

Socialmente, para o indivíduo, não ser isolado é mais importante do que ser ouvido. Na prática, a crítica pública pode provocar rejeição, atrair sanções e marginalizar os seus autores, daí um certo conformismo social ditado pela prudência. Mas o facto de não se criticar constantemente uma pessoa irritante acaba por gerar frustração e, em última análise, uma forma de apatia ou de cinismo desmotivante, o que está longe de ser desejável. Quando até o humor é visto como um ataque, não se pode esperar muita iniciativa.

Pelo contrário, os ambientes dinâmicos são capazes de aceitar críticas, e certas formas de crítica são não só aceitáveis como de grande valor. Desenvolver uma cultura aberta à crítica não é apenas uma questão de defender a liberdade de expressão, mas também de abrir canais seguros de feedback e definir os limites entre os quais a expressão crítica será aceite. A crítica anónima não tem o mesmo valor que a crítica subscrita pelo seu autor, nem transmite a mesma mensagem. "Posso criticar e, se o que digo for pertinente, as repercussões positivas superam os riscos". É este o nível de abertura que devemos ter como objetivo. A expressão crítica e pública revela quanto da verdade uma autoridade está preparada para aceitar sem querer retaliar.

As capacidades retóricas podem tornar uma crítica mais incisiva, mas não protegem o seu autor; a angariação de apoios e o alargamento da influência podem facilitar as coisas, mas revelam-se frequentemente insuficientes num regime de intimidação. O conhecimento é uma coisa, a sabedoria na escolha dos meios para o exprimir é outra. Por vezes, as acções falam mais alto do que as palavras, como demonstram claramente as estratégias de protesto desenvolvidas sob regimes opressivos. Estes modelos podem inspirar-nos e também mostrar-nos até que ponto estamos ou não sob esse regime e em que áreas a crítica é arriscada. Em todo o lado, há certos assuntos que não podem ser discutidos sem risco.

Como é que a educação pode incentivar uma atitude crítica? Para além da liberdade de expressão, temos o dever de transmitir tanto os meios para criticar de forma construtiva como a vontade de receber e considerar a crítica pelo que ela é: um feedback que pode muitas vezes ser útil.

Denys Lamontagne - [email protected]

Ilustração: Shutterstock - 2622648453

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